A comunicação pública precisa ir além da divulgação de informações. Para especialistas reunidos no 4º Congresso Brasileiro de Comunicação Pública, realizado na Câmara dos Deputados, em Brasília, as instituições devem priorizar o diálogo, a acessibilidade e a escuta ativa da população.
O evento começou na quarta-feira, 16 de setembro de 2026, e segue até sexta-feira, 18 de setembro. A programação reúne gestores, profissionais, pesquisadores e representantes de diferentes instituições para discutir o papel da comunicação no fortalecimento da cidadania e da democracia. O encontro também integra as comemorações dos 200 anos da Câmara dos Deputados e marca os dez anos de fundação da Associação Brasileira de Comunicação Pública.
As discussões mostram que transmitir dados não é suficiente para garantir o direito à informação. É necessário produzir conteúdos compreensíveis, acessíveis e adequados aos diferentes públicos, além de criar mecanismos para que os cidadãos possam participar, questionar e dar retorno às instituições.
Diálogo como princípio da comunicação pública
Na abertura do congresso, a diretora-geral do Instituto Serzedello Corrêa, do Tribunal de Contas da União, Ana Cristina Siqueira Novaes, ressaltou que a comunicação institucional deve considerar as diferentes realidades existentes no país. Isso envolve escolher linguagem, formatos e canais capazes de alcançar públicos com níveis distintos de acesso, conhecimento e familiaridade com os serviços públicos.
A proposta desloca a comunicação de uma lógica exclusivamente informativa para uma relação mais próxima com a sociedade. Nesse modelo, o cidadão não é apenas destinatário de mensagens oficiais. Ele também precisa ser ouvido, compreendido e considerado na formulação dos conteúdos e dos serviços divulgados.
O presidente da Associação Brasileira de Comunicação Pública, Jorge Duarte, destacou que a comunicação tem o compromisso de tornar o poder público mais transparente e compreensível. Quando uma informação não chega ao cidadão ou não é entendida por ele, podem surgir perdas de tempo, dinheiro, segurança e oportunidades.
Acessibilidade e linguagem clara
A acessibilidade aparece como uma das principais condições para que a comunicação pública cumpra sua função. Informações sobre saúde, educação, benefícios, direitos, segurança e serviços precisam estar disponíveis em formatos que considerem pessoas com deficiência, diferentes níveis de escolaridade e as características regionais do país.
Isso inclui o uso de linguagem clara, recursos de acessibilidade digital, legendas, audiodescrição, tradução em Libras e compatibilidade com tecnologias assistivas, sempre que aplicável. A escolha do formato também deve levar em conta os hábitos de consumo de informação de cada público.
Comunicar da mesma maneira para todos pode ampliar desigualdades, especialmente quando parte da população enfrenta barreiras tecnológicas, linguísticas, econômicas ou físicas. Por isso, a comunicação institucional precisa combinar padronização, qualidade técnica e adaptação às necessidades concretas dos cidadãos.
Desinformação e disputa por atenção
Outro desafio apontado durante o congresso é o ambiente de excesso de informações. A diretora de Comunicação Social do Senado Federal, Glauciene Lara, chamou atenção para o paradoxo entre a grande quantidade de dados disponíveis e a dificuldade de fazer a informação confiável alcançar o público.
As instituições disputam atenção em plataformas marcadas por algoritmos, interesses comerciais e narrativas concorrentes. Nesse cenário, a comunicação pública precisa ser precisa, tempestiva e facilmente identificável, sem abandonar a responsabilidade de contextualizar os fatos.
O avanço da inteligência artificial acrescenta novas possibilidades e riscos. Ferramentas automatizadas podem apoiar a produção e a distribuição de conteúdos, mas seu uso exige critérios éticos, supervisão profissional e preservação da mediação humana. A tecnologia não substitui a responsabilidade institucional sobre a informação divulgada.
Transparência, confiança e democracia
A diretora-geral adjunta da Câmara dos Deputados, Amanda Maria Ramalho de Carvalho, associou o jornalismo público à transparência do Estado, à participação cidadã e à defesa das instituições democráticas. Essa função se torna ainda mais relevante em períodos de crise de confiança e de circulação acelerada de conteúdos enganosos.
Na mesma direção, a subsecretária-geral das Nações Unidas para a Comunicação Global, Melissa Fleming, defendeu que as instituições estejam presentes nos canais utilizados pela população e se comuniquem na linguagem compreendida por seus públicos. A estratégia, porém, não deve ser confundida com simples presença em redes sociais. Ela exige planejamento, consistência, apuração e disposição para responder às dúvidas da sociedade.
Uma comunicação pública confiável depende também de isenção e clareza sobre a origem das informações. O cidadão precisa conseguir identificar quem fala, quais dados sustentam a mensagem e quais serviços ou providências estão disponíveis. A transparência, nesse sentido, não se limita à publicação de documentos: envolve tornar o conteúdo útil e acessível.
Desafios para as instituições
Entre os obstáculos mencionados no congresso estão a falta de pessoal, a ausência de planejamento estratégico e a dificuldade de outras áreas das instituições compreenderem o papel da comunicação. Esses fatores podem comprometer a continuidade das ações e reduzir a capacidade de resposta diante de crises ou mudanças tecnológicas.
Também foi destacada a fragmentação das audiências. Diferentes grupos podem acessar a mesma informação por sites, televisão, rádio, aplicativos, redes sociais ou canais presenciais. A estratégia institucional precisa considerar essa diversidade sem perder unidade, precisão e responsabilidade editorial.
A programação do 4º Congresso Brasileiro de Comunicação Pública inclui mesas-redondas, minicursos e grupos de trabalho. Realizado nos formatos presencial e remoto, o encontro reúne mais de 1,8 mil inscritos de todas as regiões do país. Durante a abertura, também foram entregues o Prêmio Neusa Meller de Audiovisual Universitário, concedido à Universidade Federal de Sergipe, e o Prêmio Beth Brandão de Comunicação Pública, atribuído ao professor Wilson da Costa Bueno, da Universidade de São Paulo.
As informações sobre o evento foram divulgadas pela Agência Câmara. Para as instituições públicas, a mensagem central do congresso é que comunicar bem significa garantir que a população consiga compreender, utilizar e também influenciar os serviços e as decisões que afetam sua vida.








