sábado, 26 de setembro de 2026
Cidades

Barcelos: a história do município do Amazonas conhecido pela pesca esportiva

Conheça a história de Barcelos, no Amazonas, desde a formação da missão de Mariuá até a consolidação do município como destino de pesca esportiva, ecoturismo e comércio de peixes ornamentais.

A história de Barcelos, no Amazonas, está ligada à ocupação do médio Rio Negro, à presença de povos indígenas e às estratégias da administração portuguesa para controlar e organizar a região amazônica. Antes de se tornar um dos principais destinos de pesca esportiva do Brasil, o município foi uma missão religiosa, uma vila colonial e a primeira sede da Capitania de São José do Rio Negro.

Localizado na margem direita do Rio Negro, Barcelos permanece associado à extensa rede de rios, lagos, igarapés e áreas de floresta que marca a paisagem do município. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a cidade tinha 18.834 habitantes no Censo 2022 e área territorial de 122.453,454 quilômetros quadrados, conforme os dados disponíveis no cadastro do município. (ibge.gov.br)

As origens de Barcelos na antiga Mariuá

A formação histórica de Barcelos começou no século XVIII, em uma área que já era ocupada por povos indígenas do Rio Negro. A localidade ficou conhecida como Mariuá e passou a abrigar uma missão religiosa em 1728, atribuída ao frei carmelita Matias de São Boaventura.

A missão foi estabelecida em um contexto de avanço da colonização portuguesa sobre a Amazônia. Os aldeamentos religiosos funcionavam como espaços de catequese, concentração populacional e organização da presença colonial. Ao mesmo tempo, reuniam indígenas de diferentes povos e eram integrados às rotas de circulação pelo Rio Negro.

Registros históricos mencionam a presença de grupos como Manaus, Baré e Baniwa na formação inicial do núcleo. A participação indígena foi decisiva para a abertura de caminhos, o transporte, a produção e a construção das estruturas que deram forma à futura vila. Estudos sobre a urbanização de Barcelos no período colonial também apontam a importância da mão de obra indígena na implantação do núcleo administrativo. (scielo.br)

O papel estratégico no período colonial

A importância de Mariuá aumentou a partir de meados do século XVIII, quando Portugal e Espanha buscavam definir limites territoriais na América do Sul. A região do Rio Negro era estratégica por sua posição geográfica e pela conexão com rios que conduziam ao interior do continente.

Em 1755, a Coroa portuguesa criou a Capitania de São José do Rio Negro, unidade administrativa que abrangia uma área correspondente, em grande parte, ao atual Estado do Amazonas e a setores de Roraima. Mariuá foi escolhida como sede da nova capitania, reforçando sua função política e militar.

O governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado esteve na localidade durante as expedições relacionadas à demarcação dos limites entre os domínios português e espanhol. A presença das equipes de demarcação provocou mudanças no núcleo, com abertura de ruas, organização de praças e construção de edifícios destinados à administração.

Em 6 de maio de 1758, a antiga aldeia de Mariuá foi elevada à categoria de vila com o nome de Barcelos. A escolha do nome acompanhava uma prática comum da administração portuguesa, que substituía denominações indígenas por nomes ligados ao território europeu. A nova vila tornou-se a sede da Capitania de São José do Rio Negro. (objdigital.bn.br)

Barcelos foi a primeira capital do Amazonas

O título de primeira capital do Amazonas é resultado da posição que Barcelos ocupou como sede da Capitania de São José do Rio Negro. Naquele momento, ainda não existia a Província do Amazonas com a configuração administrativa atual. A região fazia parte da estrutura colonial portuguesa, subordinada ao Estado do Grão-Pará e Maranhão.

Barcelos permaneceu como centro administrativo da capitania até 1791, quando a sede foi transferida para o Lugar da Barra do Rio Negro, núcleo que deu origem à atual Manaus. A mudança foi relacionada à posição estratégica da Barra, situada na confluência dos rios Negro e Solimões e considerada mais favorável à comunicação com outras áreas da Amazônia.

A transferência reduziu o peso político de Barcelos, mas não eliminou sua importância regional. A cidade continuou ligada às rotas fluviais do Rio Negro e à circulação de pessoas, mercadorias e informações pelo interior amazônico.

Mudanças administrativas e consolidação do município

Ao longo do século XIX, Barcelos passou por alterações em sua organização administrativa e em sua denominação. Em 1833, a localidade voltou a ser identificada pelo nome Mariuá em registros administrativos, segundo levantamentos históricos sobre a formação do município. A denominação Barcelos seria retomada posteriormente.

O município também enfrentou períodos de perda e recuperação de autonomia. Em 1930, a vila de Barcelos foi extinta por ato estadual e seu território foi anexado ao município de Moura. No ano seguinte, a unidade municipal foi restaurada. Em 31 de março de 1938, o município recebeu oficialmente foros de cidade por meio do Decreto-Lei estadual nº 68. (sema.am.gov.br)

Essas mudanças mostram que a história de Barcelos não se resume ao período colonial. A formação territorial do município foi influenciada por decisões administrativas, criação e extinção de unidades locais e reorganizações políticas que ocorreram durante a construção do Estado do Amazonas.

Rio Negro, floresta e vida comunitária

A geografia é um dos elementos centrais da identidade de Barcelos. O município se estende por uma vasta área de floresta amazônica e abriga rios e afluentes que estruturam o deslocamento, a economia e a vida social de comunidades urbanas, rurais, ribeirinhas e indígenas.

Entre os cursos d’água associados ao município estão os rios Aracá, Demeni, Padauiri, Caurés, Unini e Jaú, além do próprio Rio Negro. A dinâmica dos rios define os períodos de cheia e vazante, influencia a navegação e interfere nas atividades de pesca, extrativismo, comércio e turismo.

Na paisagem regional também se destacam o Arquipélago de Mariuá, formado por numerosas ilhas, e áreas protegidas como o Parque Estadual Serra do Aracá. O território municipal ainda possui relação com o Parque Nacional do Jaú, unidade de conservação que se estende por Barcelos e Novo Airão.

As características naturais ajudaram a preservar a centralidade dos rios na história local. Mesmo com as transformações administrativas e econômicas, a circulação fluvial continua sendo fundamental para conectar a sede municipal às comunidades e aos pontos de visitação.

Da pesca tradicional aos peixes ornamentais

A pesca sempre fez parte da vida econômica e cultural do médio Rio Negro. Além da pesca voltada à alimentação e ao comércio local, Barcelos ganhou projeção pela captura e comercialização de peixes ornamentais, atividade que rendeu ao município o título de Terra do Peixe Ornamental.

O comércio de espécies ornamentais passou a integrar a economia de famílias, pescadores, comerciantes e comunidades ribeirinhas. A atividade, porém, depende do conhecimento dos ambientes aquáticos, da sazonalidade dos rios e da conservação dos habitats onde vivem as espécies.

O peixe ornamental também se tornou parte da identidade cultural de Barcelos. O Festival do Peixe Ornamental é um dos eventos associados à divulgação dessa tradição e à valorização da relação entre a população e os rios da região.

Como Barcelos se tornou referência em pesca esportiva

A pesca esportiva ganhou força como atividade turística por causa da variedade de ambientes aquáticos e da presença do tucunaré, especialmente o tucunaré-açu, espécie muito procurada por pescadores. A prática é baseada, em geral, na captura e soltura do peixe, com o objetivo de reduzir a retirada de exemplares do ambiente natural.

Segundo a Amazonastur, Barcelos está entre os principais destinos brasileiros para a pesca esportiva. A temporada tradicional ocorre entre setembro e fevereiro, período em que operadores, guias, piloteiros, hotéis, embarcações, restaurantes e comerciantes passam a atender um fluxo maior de visitantes. (amazonastur.am.gov.br)

O turismo municipal identifica o Rio Negro e seus afluentes, incluindo áreas do Arquipélago de Mariuá, como locais de prática da atividade. A administração local também divulga Barcelos como destino internacional da pesca esportiva, em razão da procura por grandes exemplares de tucunaré em ambiente natural. (turismo.barcelos.am.gov.br)

A expansão desse segmento criou uma cadeia de serviços que envolve empresas especializadas, condutores, pilotos de embarcação, hospedagens, alimentação e comércio. Pesquisa apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas analisou o perfil de pescadores esportivos, guias, empresários, comerciantes e moradores ligados à atividade no município. O estudo registrou a presença de praticantes com diferentes tempos de experiência, incluindo pessoas que frequentam a região há décadas. (fapeam.am.gov.br)

Pesca esportiva e conservação ambiental

O crescimento do turismo de pesca esportiva também aumentou a necessidade de ordenar o uso dos rios e proteger os estoques pesqueiros. Em áreas do município, acordos de pesca estabelecem regras para diferentes modalidades, incluindo pesca de subsistência, pesca comercial, pesca ornamental e pesca esportiva.

Nas regras definidas para a pesca esportiva, a modalidade é associada ao pesque e solte e não permite a retirada de cota de pescado. Os acordos também podem estabelecer áreas de preservação, períodos de restrição, métodos autorizados e medidas para o descarte adequado de resíduos produzidos pelas embarcações. (diario.imprensaoficial.am.gov.br)

O tucunaré ocupa posição especial nesse debate. Em Barcelos, normas de manejo e ações de fiscalização procuram limitar a captura comercial da espécie e proteger áreas utilizadas para reprodução e desenvolvimento dos peixes. A prefeitura também informa que realiza atividades de orientação ambiental e fiscalização em comunidades e regiões de pesca. (barcelos.am.gov.br)

A sustentabilidade da atividade depende da participação conjunta do poder público, das comunidades, dos operadores turísticos e dos visitantes. Na prática, isso envolve respeitar acordos locais, cumprir a legislação, evitar o descarte de lixo nos rios e manter procedimentos que reduzam o impacto sobre os peixes e os ambientes naturais.

Um município entre a memória e o turismo

Barcelos reúne diferentes camadas da história amazônica. A antiga Mariuá remete às populações indígenas e às missões religiosas do século XVIII. A vila criada em 1758 lembra o processo de ocupação colonial e a formação da Capitania de São José do Rio Negro. A cidade contemporânea, por sua vez, é marcada pela navegação, pela pesca, pelo comércio de peixes ornamentais e pelo turismo de natureza.

A pesca esportiva não substitui a história do município, mas acrescenta uma nova dimensão à sua projeção nacional e internacional. O mesmo sistema de rios que sustentou a circulação regional durante séculos hoje atrai visitantes interessados em conhecer a floresta e pescar tucunarés em áreas de águas pretas.

Por isso, compreender a história de Barcelos exige observar a conexão entre território, povos, rios e atividades econômicas. O município conhecido pela pesca esportiva é também uma das referências históricas da ocupação do Rio Negro e um lugar onde o passado colonial, os modos de vida ribeirinhos e os desafios da conservação ambiental continuam relacionados.