Coari ocupa uma posição estratégica no centro do Amazonas. Localizado na calha do rio Solimões, o município combina uma extensa área territorial, uma rede de rios e lagos, atividades tradicionais das comunidades ribeirinhas e uma das principais áreas de produção de petróleo e gás natural em terra no Brasil.
Essa combinação explica a importância econômica de Coari para o Amazonas. A exploração de hidrocarbonetos projetou o município no cenário nacional, ampliou sua arrecadação e criou uma infraestrutura associada ao transporte de combustíveis. Ao mesmo tempo, a economia local continua ligada à pesca, à agricultura, ao extrativismo, ao comércio e aos serviços.
O desafio é transformar a riqueza gerada pelos recursos naturais em desenvolvimento duradouro, com melhoria dos serviços públicos, diversificação econômica, proteção ambiental e oportunidades para a população que vive tanto na sede quanto nas comunidades rurais e ribeirinhas.
Localização e dimensão territorial
Coari está situada no Médio Solimões, entre os lagos de Coari e Mamiá e às margens do rio Solimões. A posição facilita a ligação fluvial com outros municípios do interior e com Manaus, embora as grandes distâncias e as condições variáveis de navegação imponham custos logísticos elevados.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município tinha 70.616 habitantes no Censo 2022 e área territorial de 57.894,132 quilômetros quadrados. A densidade demográfica era de 1,22 habitante por quilômetro quadrado, indicador que reflete a dispersão da população em um território marcado por rios, lagos, áreas de floresta e comunidades de difícil acesso. (ibge.gov.br)
A geografia determina boa parte da vida econômica de Coari. O transporte de pessoas e mercadorias depende principalmente dos rios e do transporte aéreo. O ciclo das cheias e vazantes altera o acesso a comunidades, influencia a pesca e afeta o escoamento da produção agrícola.
Formação histórica de Coari
A história do município está relacionada à ocupação indígena e à expansão das missões religiosas no vale do Solimões. A formação social da região resultou do contato entre diferentes povos indígenas, colonizadores e populações que passaram a viver da agricultura, da pesca, do extrativismo e do comércio fluvial.
Registros históricos reunidos pela Associação Amazonense de Municípios indicam que Coari foi elevada à categoria de vila em 30 de setembro de 1854 e reconhecida como município em 21 de maio de 1874. A mesma fonte aponta que o nome Coari tem origem indígena, embora existam diferentes interpretações para seu significado. (aam.org.br)
Antes da projeção da indústria de petróleo e gás, a economia local dependia principalmente das atividades ligadas aos rios e à floresta. A produção de banana, farinha, pescado, castanha, açaí e outros produtos amazônicos integrava o cotidiano das comunidades e abastecia os mercados locais e regionais.
Petróleo e gás natural no Polo de Urucu
A principal transformação econômica de Coari ocorreu com a exploração da Província Petrolífera de Urucu, área localizada no município e operada pela Petrobras. A produção de petróleo e gás natural fez de Coari uma referência do setor energético brasileiro e colocou o Amazonas entre os estados com participação relevante na produção terrestre de hidrocarbonetos.
O gás e o petróleo extraídos na região são transportados por dutos até Coari. A partir do município, a produção segue por diferentes meios de transporte e, no caso do gás natural, é encaminhada pelo sistema de transporte que liga Urucu, Coari e Manaus.
De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, o Gasoduto Urucu-Coari-Manaus foi projetado para atender à demanda energética da Região Norte. O sistema tem 662 quilômetros de extensão, incluindo um trecho de 279 quilômetros entre Urucu e Coari e outro de 383 quilômetros entre Coari e Manaus. (gov.br)
Essa infraestrutura tornou Coari um ponto de passagem essencial para o abastecimento energético do Amazonas. O gás natural é utilizado na geração de eletricidade e também pode atender consumidores industriais, comerciais e residenciais, conforme a expansão da rede de distribuição no estado.
Dados divulgados pelo Governo do Amazonas apontam que a Bacia do Solimões, onde está o Polo Arara, em Urucu, responde por parcela importante da produção estadual de gás natural. O município de Coari também aparece entre os maiores arrecadadores de royalties relacionados à exploração de petróleo e gás no país. (investamazonas.am.gov.br)
Em 27 de maio de 2026, o Ministério de Minas e Energia informou o anúncio de investimentos superiores a R$ 2,8 bilhões para o Amazonas, incluindo recursos destinados à expansão da produção de gás natural no Polo de Urucu. O pacote mencionado pelo governo federal incluiu a previsão de R$ 2,5 bilhões para a perfuração de 22 novos poços e a implantação de aproximadamente 40 quilômetros de linhas. (gov.br)
Royalties e impacto na economia municipal
A exploração de petróleo e gás gera efeitos diretos e indiretos sobre a economia de Coari. Entre os efeitos diretos estão os royalties, as participações governamentais, a contratação de serviços e a circulação de trabalhadores ligados à cadeia de energia. Também há impacto sobre o comércio, a hotelaria, o transporte, a construção civil e a prestação de serviços.
Os royalties, porém, não representam uma solução automática para os problemas sociais e econômicos do município. A receita pode variar de acordo com a produção, os preços dos combustíveis, as regras de distribuição e os contratos do setor. Por isso, a administração pública precisa planejar o uso desses recursos e reduzir a dependência de uma única atividade.
O próprio perfil econômico de Coari mostra essa concentração. No IBGE, o município registrou PIB per capita de R$ 55.138,76 em 2023. Esse indicador mede a produção econômica dividida pela população, mas não revela sozinho como a renda é distribuída nem se os ganhos se convertem em serviços públicos e qualidade de vida. (ibge.gov.br)
Pesca e recursos dos rios
Os rios, lagos e igarapés formam outra base importante da economia coariense. A pesca artesanal garante alimento, renda e trabalho para famílias urbanas e rurais. O pescado também abastece o comércio local e participa do fornecimento para outros mercados da região.
Estudos divulgados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas identificam Coari como um importante produtor de pescado do rio Solimões, com participação entre os locais que abastecem Manaus. Entre as espécies registradas em levantamentos estão jaraqui, curimatã, tambaqui, aruanã e tucunaré. (fapeam.am.gov.br)
A atividade pesqueira depende diretamente da conservação dos ambientes aquáticos. O período de defeso, o controle de equipamentos, o respeito aos acordos de pesca e o manejo comunitário são instrumentos usados para reduzir a pressão sobre as espécies e preservar a reprodução dos peixes.
Além da pesca de captura, iniciativas de manejo e piscicultura buscam ampliar a produção de tambaqui e pirarucu. O Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas já registrou apoio a comunidades de Coari em ações de despesca de peixes manejados. (idam.am.gov.br)
Agricultura, extrativismo e produção familiar
A agricultura familiar continua presente na economia de Coari, especialmente nas comunidades próximas aos lagos, rios e ramais. A produção inclui farinha de mandioca, banana, hortaliças, frutas e outros alimentos destinados ao consumo local e à comercialização.
O Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas destaca a produção de farinha, hortaliças e banana, além do extrativismo do açaí, entre as atividades econômicas do município. A prefeitura também relaciona agricultura, pecuária, pesca, aquicultura e fruticultura entre as cadeias produtivas consideradas estratégicas para o desenvolvimento rural. (idam.am.gov.br)
Essas atividades enfrentam obstáculos conhecidos na Amazônia: distância dos centros consumidores, custo do combustível, falta de armazenamento, dificuldade de acesso a crédito, assistência técnica irregular e perda de produtos durante o transporte. Melhorar a logística e ampliar a capacidade de beneficiamento pode aumentar a renda dos produtores sem exigir a expansão desordenada das áreas de cultivo.
Rios, biodiversidade e potencial turístico
A paisagem de Coari é formada por florestas, lagos, praias temporárias, igarapés e comunidades ribeirinhas. Essa diversidade natural tem valor ambiental e também pode gerar oportunidades econômicas por meio do turismo de base comunitária, da pesca esportiva, do turismo náutico e da gastronomia regional.
O Plano Estadual de Turismo do Amazonas 2026-2036 identifica Coari como um município com potencial para turismo de base comunitária, pesca esportiva, turismo gastronômico, ecoturismo e lazer. O documento cita o aeroporto, o porto, as comunidades indígenas e ribeirinhas, os lagos e os rios como elementos de apoio à atividade turística. (amazonastur.am.gov.br)
O desenvolvimento desse setor exige planejamento. A visitação precisa respeitar os ciclos dos rios, os modos de vida das comunidades e a capacidade de suporte dos ambientes. Também depende de transporte confiável, qualificação profissional, divulgação adequada, segurança e distribuição da renda entre os moradores.
Importância logística no Médio Solimões
Coari também exerce função logística por estar integrado à hidrovia do Solimões. Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o rio é uma das principais vias de transporte e escoamento de cargas da Região Norte. A hidrovia tem cerca de 1.630 quilômetros e conecta municípios de diferentes estados da Amazônia. (gov.br)
O porto e a estrutura de transporte associada ao município são importantes para a movimentação de combustíveis, alimentos, equipamentos e passageiros. A localização entre a área produtora de Urucu e Manaus reforça essa função de conexão entre o interior do estado, a capital e outras rotas da região.
Ao mesmo tempo, a navegação enfrenta limitações. O leito do Solimões muda com frequência, alterando canais, bancos de areia, ilhas e áreas de erosão. Essas condições exigem monitoramento, sinalização e manutenção para reduzir riscos e preservar a regularidade do transporte. (gov.br)
Desafios para transformar riqueza em desenvolvimento
A importância econômica de Coari não elimina os desafios sociais e ambientais do município. A população está espalhada por uma área extensa, o que dificulta a oferta de educação, saúde, saneamento, energia, comunicação e transporte para as comunidades mais distantes.
A presença de petróleo e gás também exige controle ambiental permanente. A exploração em áreas de floresta deve observar licenciamento, prevenção de acidentes, recuperação de áreas impactadas e proteção dos recursos hídricos. A atividade econômica precisa ser acompanhada por transparência sobre receitas, investimentos, metas e resultados.
Outro desafio é diversificar a economia. A pesca manejada, a agricultura familiar, o extrativismo sustentável, o turismo e os serviços podem reduzir a dependência dos royalties e criar alternativas de renda. Para isso, são necessários formação profissional, crédito, assistência técnica, infraestrutura de armazenamento e acesso a mercados.
Um município estratégico para o futuro do Amazonas
Coari reúne características que ajudam a explicar sua relevância para o Amazonas: território amplo, localização na hidrovia do Solimões, recursos energéticos, produção pesqueira, agricultura familiar, biodiversidade e conexão com Manaus.
O município se tornou conhecido nacionalmente pela produção de petróleo e gás natural, mas sua economia não se resume ao setor energético. A vida econômica e cultural de Coari também é sustentada por rios, florestas, comunidades e cadeias produtivas tradicionais.
O futuro do município dependerá da capacidade de articular essas riquezas. A exploração de recursos naturais continuará tendo peso, mas o desenvolvimento mais estável será aquele que combinar energia, logística, produção local, conservação ambiental e políticas públicas capazes de alcançar toda a população coariense.