Codajás se tornou um dos principais nomes associados ao açaí no Amazonas. Localizado às margens do rio Solimões, o município construiu parte importante de sua identidade econômica, social e cultural a partir da relação entre comunidades ribeirinhas, áreas de várzea e a palmeira que produz o fruto.
A fama de Codajás não surgiu apenas com a expansão nacional do consumo de açaí. A atividade faz parte da rotina de produtores e famílias da região há décadas, em uma cadeia que envolve coleta, cultivo, transporte, beneficiamento e comercialização. Em 2023, o município recebeu oficialmente do Governo do Amazonas o título de “Capital Amazonense do Açaí”. Em 2024, o produto também obteve registro de Indicação de Procedência no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI.
Onde fica Codajás
Codajás está situado no interior do Amazonas, na calha do rio Solimões. Segundo o IBGE, o município tinha 23.549 habitantes no Censo 2022 e área territorial de 19.038,052 quilômetros quadrados, conforme os dados mais recentes apresentados pelo instituto.
A posição geográfica ajuda a explicar a importância dos rios e lagos para a vida local. O deslocamento de pessoas, mercadorias e produtos agrícolas depende historicamente da navegação. No caso do açaí, a logística é especialmente relevante porque o fruto é perecível e precisa ser transportado e processado em intervalo relativamente curto após a colheita.
A produção está associada a áreas próximas de lagos e cursos d’água, além de comunidades distribuídas pelo território municipal. Documentos reunidos durante o processo de reconhecimento da Indicação Geográfica mencionam áreas de produção nas proximidades dos lagos Miuá, Badajós, Salsa, Jamacana e Piorini, bem como nas margens do Solimões e ao longo de vias de acesso.
As origens históricas do município
A história de Codajás remonta à presença de povos indígenas na região. Registros históricos associam a área à aldeia dos Cudaiás e à posterior ocupação por grupos Mura. A formação do núcleo que deu origem ao município ocorreu no século XIX, em um contexto de circulação de pessoas pelo Solimões, criação de gado, pesca e comércio fluvial.
Uma das referências mais citadas na formação local é a chegada, em 1864, de José Manoel da Rocha Thury, vindo do Maranhão com outras famílias. A ocupação teria contribuído para o crescimento da localidade, inicialmente conhecida como Barreiras de Cudajás. As informações históricas sobre esse processo aparecem em estudos e registros reunidos por instituições e pesquisadores dedicados à formação territorial do Amazonas.
A freguesia de Nossa Senhora das Graças de Cudajás foi criada pela Lei Provincial nº 175, de 30 de junho de 1868. Em 1º de maio de 1874, a Lei Provincial nº 287 elevou a localidade à condição de vila de Codajás. A instalação do município ocorreu em 5 de agosto de 1875. Décadas depois, em 31 de março de 1938, Codajás foi elevada à categoria de cidade, conforme registros históricos sobre a formação administrativa amazonense.
Essa trajetória mostra que a história de Codajás antecede a notoriedade alcançada pelo açaí. O município se desenvolveu a partir de diferentes atividades econômicas e das relações estabelecidas entre o rio, as comunidades e os mercados regionais.
Da coleta tradicional à cadeia produtiva
Durante muito tempo, o açaí foi tratado principalmente como alimento de consumo regional. Nas comunidades do Amazonas, a polpa costuma integrar a alimentação cotidiana e é consumida com farinha, peixe ou outros acompanhamentos, em uma tradição diferente das versões adoçadas e congeladas popularizadas em outras regiões do país.
O fruto pode ser obtido por extrativismo, com a coleta em áreas de ocorrência natural das palmeiras, ou por meio do cultivo agrícola. Essa distinção é importante porque as estatísticas oficiais apresentam os dados em levantamentos diferentes. A Pesquisa Agrícola Municipal, do IBGE, acompanha o açaí cultivado, enquanto a Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura trata da produção extrativa.
Em Codajás, as duas formas de produção fazem parte da história econômica local. O trabalho envolve agricultores familiares, extrativistas, transportadores, comerciantes, unidades de beneficiamento e organizações cooperativas. A atividade também depende do conhecimento sobre o ciclo das águas, o período de frutificação, a subida nas palmeiras e o transporte em embarcações.
Relatos de órgãos de assistência técnica do Amazonas mostram que a produção de açaí passou a movimentar a economia municipal de maneira mais intensa à medida que aumentou a procura pelo fruto e pela polpa. O beneficiamento local permitiu reduzir perdas, ampliar o tempo de comercialização e enviar parte da produção para Manaus e outros mercados.
O crescimento do mercado
A expansão do consumo de açaí no Brasil, especialmente a partir das últimas décadas do século XX, alterou a escala da cadeia produtiva. O fruto, antes concentrado no consumo amazônico, passou a ser comercializado em outras regiões como polpa congelada, bebida e ingrediente de diferentes produtos.
Esse processo criou oportunidades, mas também aumentou os desafios. A distância entre Codajás e os grandes centros consumidores, a dependência do transporte fluvial, a necessidade de refrigeração e as variações da safra influenciam o preço e a capacidade de comercialização.
Em períodos de maior produção, a oferta pode superar a capacidade de processamento e transporte. Por isso, iniciativas de organização dos produtores, melhoria das técnicas de higiene, armazenamento adequado e agregação de valor passaram a ser consideradas importantes para a sustentabilidade econômica da atividade.
A transformação do fruto em polpa, suco ou outros derivados também representa uma tentativa de fazer com que parte da renda permaneça no município. Em vez de vender somente o fruto in natura, produtores e empreendimentos locais podem ampliar o valor obtido com o beneficiamento, desde que tenham estrutura, acesso a equipamentos e canais de comercialização.
Codajás na produção de açaí do Amazonas
Os dados mais recentes disponibilizados pelo IBGE para o açaí cultivado no Amazonas apontam Codajás como o maior município produtor do estado em valor da produção em 2025. O município aparece com R$ 85,8 milhões, diante de um total estadual de R$ 250,027 milhões.
Esses números precisam ser interpretados com cuidado. O valor registrado na Pesquisa Agrícola Municipal corresponde ao açaí cultivado e não representa necessariamente toda a produção extrativa ou toda a movimentação econômica da cadeia. Além disso, estatísticas agrícolas podem não captar integralmente atividades informais, produção para autoconsumo e fluxos de comercialização realizados fora dos canais formais.
A série do IBGE mostra que o valor estadual da produção de açaí cultivado passou de R$ 136,377 milhões em 2021 para R$ 250,027 milhões em 2025. No mesmo levantamento, Codajás aparece à frente dos demais municípios amazonenses em valor da produção, reforçando sua posição como principal referência estadual no cultivo do fruto.
O título de Capital Amazonense do Açaí
O reconhecimento institucional da atividade ocorreu com a Lei nº 6.611, de 11 de dezembro de 2023. A norma, aprovada pela Assembleia Legislativa do Amazonas e sancionada pelo governo estadual, conferiu a Codajás o título de “Capital Amazonense do Açaí”.
O título tem caráter simbólico e político. Ele reconhece a importância da produção, da industrialização e das tradições associadas ao fruto, além de reforçar a identidade de Codajás dentro do estado. A lei não transforma o município automaticamente em maior produtor nacional nem substitui as estatísticas oficiais de produção, mas registra uma denominação de valorização regional.
A escolha também se relaciona à presença histórica do açaí na economia e na cultura do município. Festas, feiras, comercialização de frutas e atividades comunitárias ajudam a associar a imagem de Codajás ao fruto. Nesse contexto, o açaí funciona tanto como produto agrícola quanto como elemento de identificação coletiva.
O que significa a Indicação Geográfica
Em março de 2024, o açaí de Codajás recebeu do INPI o registro de Indicação Geográfica na modalidade Indicação de Procedência. De acordo com o INPI, a Indicação de Procedência reconhece o nome geográfico de uma cidade, região ou localidade que se tornou conhecida como centro de produção, fabricação ou extração de determinado produto.
O registro não significa que todo açaí produzido no Amazonas possa ser comercializado como “Açaí de Codajás”. A documentação do processo delimita a área de produção ao território do município de Codajás e estabelece regras para o uso do nome geográfico. O produto deve seguir as especificações e os mecanismos de controle previstos para a indicação.
Na prática, a Indicação Geográfica pode ajudar a diferenciar o produto, proteger a reputação construída pelos produtores e melhorar a identificação da origem. Também pode contribuir para ações de promoção comercial, organização da cadeia e valorização do trabalho realizado pelas comunidades.
O reconhecimento, porém, não resolve sozinho problemas como transporte caro, falta de estrutura, variação de preços, perdas na safra ou dificuldade de acesso a mercados. Para produzir efeitos econômicos mais amplos, a indicação precisa ser acompanhada de controle, adesão dos produtores, fiscalização, divulgação e continuidade das políticas de apoio.
Uma identidade ligada ao rio e à floresta
A história de Codajás ajuda a compreender por que o açaí ganhou tamanha importância no município. A produção está ligada a um território moldado pelos rios, pelas áreas de várzea e pelo conhecimento acumulado pelas famílias que vivem da agricultura, da pesca e do extrativismo.
O fruto também revela mudanças na economia amazônica. Uma atividade inicialmente voltada sobretudo ao consumo local passou a integrar cadeias de comércio mais amplas, sem perder completamente sua relação com os hábitos alimentares e os modos de vida das comunidades ribeirinhas.
Por isso, falar em Codajás e açaí é tratar de mais do que um produto agrícola. É abordar a formação histórica de um município, a permanência de práticas tradicionais, os desafios logísticos do interior do Amazonas e as tentativas recentes de transformar reputação regional em valor econômico.
Com o título de Capital Amazonense do Açaí e o registro de Indicação de Procedência, Codajás consolidou oficialmente uma imagem que já fazia parte do cotidiano de seus moradores. O futuro dessa cadeia dependerá da capacidade de ampliar o beneficiamento, melhorar a renda dos produtores e preservar as condições ambientais que sustentam a produção.