sexta-feira, 25 de setembro de 2026
SAÚDE

Cuidados com a saúde durante a cheia dos rios no Amazonas: veja como se proteger

Durante a cheia dos rios no Amazonas, medidas simples ajudam a reduzir o risco de doenças e acidentes. Saiba como cuidar da água, dos alimentos, da higiene, da vacinação e da saúde mental durante o período de inundação.

Os cuidados com a saúde durante a cheia dos rios no Amazonas devem começar antes do contato com a água e continuar depois que o nível dos rios baixar. A inundação pode misturar água de consumo, esgoto, lixo e lama, além de deslocar animais peçonhentos para dentro das casas e aumentar o risco de acidentes durante a limpeza.

Entre os principais problemas associados às enchentes estão leptospirose, doenças diarreicas agudas, hepatite A e tétano. Também podem ocorrer ferimentos, picadas, mordidas, choques elétricos e impactos emocionais. A Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas e a Secretaria de Estado de Saúde orientam que a população adote medidas preventivas e procure os serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) quando houver sintomas ou situação de risco.

Em orientação divulgada em 7 de abril de 2026, a FVS-RCP recomendou aos municípios do Amazonas o reforço da vigilância, a atualização da vacinação e a distribuição prioritária de hipoclorito de sódio para o tratamento da água em situações emergenciais.

Água para beber deve ser tratada

A água do rio, de poços, cacimbas, torneiras ou reservatórios pode ficar imprópria para o consumo durante a cheia. Mesmo quando a água parece limpa, ela pode conter microrganismos causadores de doenças. Por isso, não beba água de inundação e não utilize água suspeita para preparar alimentos, escovar os dentes ou fazer gelo.

Quando não houver acesso à água potável, a recomendação do Ministério da Saúde é filtrar ou coar a água com filtro doméstico, coador de papel ou pano limpo. Depois, deve-se adicionar duas gotas de hipoclorito de sódio a 2,5% para cada litro de água e aguardar 30 minutos antes do consumo.

O produto precisa ser próprio para desinfecção da água, sem perfume, corante, alvejante ou outros aditivos. A água sanitária somente deve ser utilizada se tiver concentração de cloro ativo de 2% a 2,5% e não apresentar ingredientes adicionais no rótulo.

Na ausência de hipoclorito, a água pode ser filtrada ou coada e fervida por cinco minutos após o início da fervura. Depois, é necessário esperar esfriar antes de beber. O armazenamento deve ser feito em recipiente limpo, tampado e protegido de novas contaminações.

Se a água da torneira apresentar mudança de cor, cheiro ou gosto, a orientação é evitar o consumo e comunicar a Secretaria Municipal de Saúde ou o serviço responsável pelo abastecimento. A população também deve acompanhar as instruções divulgadas pelas autoridades locais.

Cuidados com caixas-d’água e recipientes

Caixas-d’água, tambores, baldes e outros recipientes podem ser contaminados mesmo sem contato direto com a água da enchente. Durante a cheia, rompimentos ou vazamentos na rede de distribuição podem permitir a entrada de água poluída.

Os reservatórios devem permanecer fechados e ser higienizados quando houver suspeita de contaminação. A limpeza deve seguir as orientações da autoridade de saúde ou do serviço de abastecimento, especialmente em comunidades rurais e áreas onde o acesso a produtos de tratamento é limitado.

Não misture hipoclorito de sódio com outros produtos de limpeza. O uso inadequado pode causar intoxicação. Em caso de dúvida sobre a concentração ou a forma de utilização, procure orientação na unidade de saúde, na Secretaria Municipal de Saúde ou com a equipe responsável pela distribuição do produto.

Alimentos atingidos pela água devem ser descartados

Alimentos que tiveram contato com a água da enchente ou com a lama não devem ser consumidos. A recomendação vale para produtos frescos, como frutas, verduras e legumes, e para alimentos embalados em caixas, sacos, potes, garrafas, frascos de vidro ou embalagens longa vida.

Também devem ser descartados produtos abertos, furados, amassados, enferrujados ou cuja embalagem tenha perdido a vedação. A água contaminada pode penetrar por tampas e pequenas aberturas, mesmo quando o alimento parece seco ou apresenta aparência normal.

Em situações de emergência, latas metálicas hermeticamente fechadas e sem danos são consideradas opções mais seguras. Ainda assim, a embalagem deve ser lavada e higienizada antes de ser aberta. Não experimente o alimento para verificar se ele está bom. Quando houver dúvida, descarte.

Durante o período de cheia, mantenha os alimentos protegidos, longe do chão, da água e de animais. O lixo deve ser acondicionado em recipientes fechados e retirado conforme a orientação local, pois o acúmulo de resíduos favorece a presença de roedores e outros animais.

Como reduzir o risco de leptospirose

A leptospirose é causada pela bactéria Leptospira, geralmente encontrada na urina de ratos e de outros animais infectados. A bactéria pode estar presente na água e na lama das enchentes e entrar no organismo por ferimentos, pela pele que permanece imersa por muito tempo ou pelas mucosas dos olhos, nariz e boca.

O principal cuidado é evitar o contato com água de inundação, lama e esgoto. Crianças não devem nadar ou brincar nesses locais. Quando o contato for inevitável, use botas, luvas e roupas impermeáveis. Cortes e arranhões devem ser cobertos com curativos resistentes à água.

Após a exposição, fique atento a febre, dor de cabeça, calafrios, náuseas, vômitos e dores musculares, especialmente nas pernas e na região lombar. Os sintomas podem aparecer de um a 30 dias depois do contato, embora geralmente surjam entre sete e 14 dias.

Ao apresentar febre ou outros sintomas depois de entrar em água ou lama possivelmente contaminada, procure imediatamente uma unidade de saúde e informe a exposição. O tratamento deve ser iniciado a partir da suspeita clínica, sem esperar necessariamente a confirmação laboratorial.

Não há recomendação de tomar medicamentos por conta própria para evitar leptospirose. A prescrição de antibióticos deve ser feita por profissional de saúde, conforme a avaliação de cada caso.

Diarreia e outros sinais que exigem atenção

A contaminação da água e dos alimentos pode causar diarreia, febre, dor abdominal, cólicas, náuseas, vômitos e presença de sangue ou muco nas fezes. Esses sintomas também podem ter outras causas, mas precisam ser acompanhados durante e após a cheia.

Se uma pessoa tiver três ou mais episódios de diarreia em 24 horas, deve procurar atendimento médico. A avaliação é especialmente importante para crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas, que podem desidratar mais rapidamente.

Enquanto aguarda atendimento, a pessoa deve tentar manter a hidratação com água segura e seguir a orientação dos profissionais de saúde. Não utilize medicamentos antidiarreicos ou antibióticos sem indicação médica, principalmente quando houver febre, sangue nas fezes, vômitos persistentes ou dor intensa.

Vacinação e prevenção do tétano

A cheia aumenta o risco de ferimentos provocados por pedaços de madeira, metal, vidro, espinhos, ferramentas e entulhos. Esses objetos podem causar cortes e perfurações associados ao tétano acidental.

Use luvas, botas e roupas que protejam mãos, braços, pernas e pés durante a limpeza. Evite entrar em áreas inundadas sem necessidade e não manipule objetos submersos sem proteção, pois podem estar cortantes ou contaminados.

Verifique a situação da caderneta de vacinação na unidade de saúde. A FVS-RCP orienta a atualização do esquema vacinal, especialmente para doenças relacionadas ao período de enchentes, como tétano, hepatite e raiva. Em caso de ferimento, informe quando foi tomada a última dose da vacina contra o tétano e procure atendimento para avaliar a necessidade de vacinação ou soro.

Atenção a cobras, escorpiões e aranhas

Durante as enchentes, animais peçonhentos podem procurar locais secos e se abrigar dentro de casas, barcos, galpões, móveis, roupas, calçados e pilhas de entulho. Antes de usar sapatos, botas, roupas de cama ou objetos guardados, examine cuidadosamente o material.

Não coloque as mãos em buracos, frestas, caixas, montes de madeira ou locais escuros. Use um cabo ou ferramenta para movimentar objetos, mantendo distância. Nunca tente capturar ou tocar em um animal, mesmo que pareça morto.

Em caso de picada ou mordida, mantenha a pessoa em repouso, evite fazer cortes, aplicar substâncias ou amarrar o membro e procure atendimento médico. Se for seguro, uma fotografia feita à distância pode ajudar na identificação, mas não se arrisque para capturar o animal.

Cuidados durante a limpeza das casas

A limpeza deve começar somente quando houver segurança para retornar ao imóvel. A água pode esconder buracos, fios, objetos cortantes e animais. Também existe risco de choque elétrico em áreas molhadas. Não toque em fios, tomadas, aparelhos ou instalações elétricas submersas e siga as orientações da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros.

Na remoção de lama e entulho, utilize botas e luvas impermeáveis. Depois, lave as mãos com água e sabão. Superfícies atingidas pela lama devem ser limpas e desinfetadas conforme a orientação do Ministério da Saúde, que recomenda solução de hipoclorito de sódio a 2,5% para a desinfecção de locais contaminados.

Não misture produtos de limpeza e mantenha crianças afastadas da área durante o procedimento. Medicamentos, cosméticos, produtos de higiene e alimentos que tiveram contato com a água da enchente devem ser descartados, salvo orientação específica de uma autoridade sanitária.

Saúde mental também merece atenção

A perda de objetos, a necessidade de deixar a casa, a interrupção da rotina e a preocupação com familiares podem provocar medo, tristeza, irritabilidade, insônia e ansiedade. Manter contato com pessoas de confiança, compartilhar sentimentos e buscar apoio profissional são medidas importantes.

Se o sofrimento persistir ou dificultar as atividades diárias, procure a unidade de saúde de referência. Em situações de emergência, priorize a segurança física e siga as orientações das autoridades locais.

Quando buscar ajuda

Procure atendimento imediatamente em caso de febre após contato com água de enchente, dor intensa no corpo, pele ou olhos amarelados, falta de ar, confusão mental, sangramento, vômitos persistentes, diarreia com sangue, sinais de desidratação, picada ou mordida de animal, ferimento profundo ou suspeita de choque elétrico.

Em emergências, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência pode ser acionado pelo telefone 192, o Corpo de Bombeiros pelo 193 e a Defesa Civil pelo 199. Para orientações gerais, acompanhe os comunicados da prefeitura, da Secretaria Municipal de Saúde, da SES-AM, da FVS-RCP e dos demais órgãos oficiais.

As recomendações podem ser consultadas nas orientações do Ministério da Saúde sobre enchentes e no material oficial de orientação à população em situação de enchentes. As medidas não substituem a avaliação de um profissional de saúde.