Os esportes adaptados no Amazonas têm se consolidado como instrumento de inclusão, desenvolvimento e participação social de pessoas com deficiência. A prática aparece em festivais, competições escolares, projetos públicos, ações universitárias e eventos organizados pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).
Mais do que preparar atletas para disputas de alto rendimento, essas iniciativas ampliam o acesso ao lazer, estimulam a convivência entre pessoas com e sem deficiência e ajudam a combater barreiras históricas presentes nas escolas, nos espaços esportivos e na comunidade.
Em 2026, o estado recebeu atividades de alcance regional e nacional, incluindo o Meeting Paralímpico Loterias Caixa, o Camping Escolar Regional Paralímpico e o Festival Paralímpico. As ações ocorreram principalmente em Manaus, mas também alcançaram municípios do interior, como Parintins.
Esporte adaptado começa na escola
O ambiente escolar é uma das principais portas de entrada para o esporte adaptado. É nesse espaço que muitas crianças e adolescentes têm o primeiro contato com modalidades como atletismo, natação, bocha, judô, vôlei sentado e basquete em cadeira de rodas.
No Amazonas, as Paralimpíadas Escolares reúnem estudantes com deficiência em competições organizadas em diferentes etapas. Em 2025, a delegação amazonense encerrou o primeiro bloco da competição nacional com 35 medalhas e oito recordes escolares, segundo a Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar.
As Paralimpíadas Escolares são voltadas a jovens de 10 a 18 anos e funcionam como espaço de iniciação e desenvolvimento esportivo. Além dos resultados, a participação permite que os estudantes conheçam outros atletas, tenham contato com profissionais especializados e descubram possibilidades de continuidade na carreira esportiva.
A legislação estadual também prevê a participação de alunos com deficiência, em igualdade de condições, em atividades escolares de esporte, recreação, lazer e turismo. O Estatuto da Pessoa com Deficiência do Amazonas estabelece ainda a previsão de Jogos Estudantis Paradesportivos e de mecanismos para estimular o desenvolvimento do paradesporto no estado.
Festivais aproximam crianças das modalidades paralímpicas
Outra estratégia de inclusão são os festivais de experimentação. Neles, crianças e jovens podem conhecer modalidades adaptadas sem a pressão de uma competição formal. A proposta é apresentar regras, equipamentos e possibilidades de participação de maneira lúdica e acessível.
Em setembro de 2026, o Festival Paralímpico Loterias Caixa foi realizado em 149 sedes distribuídas por 115 cidades brasileiras. No Amazonas, houve atividades em Manaus e Parintins. A programação incluiu atletismo, bocha, judô e outras práticas, com a participação de crianças, jovens e pessoas com deficiência.
Em Manaus, o Centro de Referência Paralímpica também passou a apresentar modalidades menos conhecidas do público local. Entre elas está o remo adaptado, inicialmente trabalhado em equipamento ergométrico. A iniciativa tem o objetivo de divulgar a modalidade e avaliar o interesse de novos praticantes.
Esse tipo de ação tem duas funções. Para a pessoa com deficiência, representa uma oportunidade de experimentar uma atividade esportiva em ambiente preparado. Para os demais participantes, ajuda a ampliar a compreensão sobre acessibilidade, regras adaptadas e diferentes formas de participação.
Centros de referência oferecem caminho para o alto rendimento
O desenvolvimento do esporte paralímpico depende de uma estrutura que vá além dos eventos pontuais. Treinamento contínuo, profissionais qualificados, equipamentos adequados, avaliação física e acompanhamento multidisciplinar são necessários para que o atleta avance da iniciação ao alto rendimento.
O Centro de Referência Paralímpica de Manaus, mantido em parceria com o CPB, governos e instituições locais, oferece um ponto de apoio para a prática esportiva no estado. A Universidade Federal do Amazonas também participa de ações de formação, festivais e atividades ligadas à educação física e ao paradesporto.
Em agosto de 2026, Manaus recebeu uma etapa do Camping Escolar Regional Paralímpico. O encontro reuniu 80 jovens atletas de Amazonas, Roraima, Rondônia, Pará e Amapá, divididos entre atletismo e natação. A programação incluiu treinamentos, testes físicos, atendimento de equipe multidisciplinar e contato com atletas experientes.
O camping é uma etapa de transição entre a prática escolar e o esporte de maior rendimento. Ao vivenciar uma rotina estruturada de preparação, os jovens podem compreender melhor as exigências de treinamento, alimentação, descanso e acompanhamento profissional.
Atletas amazonenses ganham visibilidade nacional
O Amazonas também tem produzido resultados expressivos no cenário paralímpico. Um dos principais nomes é Maria de Fátima Castro, natural de Tefé, no interior do estado. A atleta do halterofilismo conquistou a medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos de Paris, realizados em 2024, na categoria até 67 quilos.
A conquista colocou o esporte paralímpico amazonense em evidência e reforçou a importância da existência de clubes, associações e centros de treinamento capazes de apoiar atletas desde as primeiras etapas da carreira.
Maria de Fátima representa a Associação dos Deficientes Físicos do Amazonas, entidade que participa da formação e do acompanhamento de atletas da modalidade. Em 2026, ela esteve entre os competidores do Meeting Paralímpico Loterias Caixa realizado em Manaus.
A competição reuniu 109 atletas, sendo 91 no atletismo e 18 no halterofilismo. O evento recebeu tanto competidores de alto rendimento quanto jovens em processo de desenvolvimento, criando uma ponte entre diferentes níveis de experiência.
Para o estado, sediar competições nacionais tem efeitos que vão além dos pódios. A presença de atletas de diferentes regiões movimenta a rede esportiva, amplia a troca de experiências e oferece aos competidores locais a possibilidade de disputar provas em casa.
Inclusão também envolve pessoas com autismo
O debate sobre esporte adaptado inclui diferentes tipos de deficiência. Entre elas está o Transtorno do Espectro Autista (TEA), condição que pode exigir adaptações relacionadas à comunicação, ao ambiente, à rotina e à forma de instrução.
Em março de 2026, a Câmara Municipal de Manaus aprovou um projeto que amplia, na política municipal voltada às pessoas com TEA, o incentivo a atividades esportivas adaptadas em escolas e espaços públicos. A proposta foi encaminhada à sanção do prefeito, mas a aprovação do projeto, por si só, não significa que todas as medidas já estejam regulamentadas ou em funcionamento.
No âmbito estadual, o Centro Integral Juventude TEA, da Secretaria de Estado de Saúde, acompanha pessoas que também encontram no esporte uma possibilidade de desenvolvimento. Em 2026, um adolescente atendido pela unidade se preparou para representar o Amazonas em uma etapa do Circuito Nacional Paralímpico, na modalidade atletismo.
Casos como esse mostram a importância de integrar esporte, educação, saúde e assistência social. O treinamento esportivo pode ser mais efetivo quando considera as características individuais do participante e conta com profissionais capazes de adaptar atividades, comunicação e estímulos.
Desafios ainda limitam a expansão
Apesar dos avanços, a inclusão esportiva no Amazonas enfrenta obstáculos. A dimensão territorial do estado dificulta o deslocamento de atletas e equipes, principalmente entre municípios do interior e Manaus. A oferta de profissionais especializados, equipamentos e espaços acessíveis também não é uniforme.
Outro desafio é garantir continuidade. Festivais e competições são importantes para dar visibilidade ao tema, mas não substituem políticas permanentes de iniciação, treinamento e acompanhamento. Sem regularidade, muitos participantes podem ter dificuldade para permanecer na atividade ou avançar para níveis mais competitivos.
A acessibilidade precisa ser observada em todas as etapas, desde o transporte até a entrada nos locais de treino, os banheiros, os vestiários, a sinalização e a comunicação. Para pessoas com deficiência visual, auditiva, física ou intelectual, as necessidades podem ser diferentes e exigem planejamento específico.
Também é necessário ampliar a formação de professores e treinadores. A presença de estudantes com deficiência nas aulas de educação física requer conhecimento sobre adaptações, segurança, classificação esportiva e estratégias para garantir a participação sem reduzir o aluno à sua deficiência.
Esporte como direito e participação social
A inclusão por meio do esporte não deve ser medida apenas pela quantidade de medalhas. O acesso à prática esportiva contribui para que pessoas com deficiência ocupem espaços públicos, fortaleçam vínculos comunitários e participem de atividades em condições mais próximas da igualdade.
Nas escolas, o esporte pode ajudar a combater o isolamento e estimular a convivência entre estudantes. Nos clubes e centros de treinamento, pode criar oportunidades de autonomia e desenvolvimento. Nas competições, permite que atletas sejam reconhecidos por sua preparação, desempenho e trajetória.
O avanço do esporte adaptado no Amazonas depende da articulação entre poder público, escolas, universidades, entidades esportivas, famílias e organizações da sociedade civil. A experiência recente do estado mostra que há atletas, projetos e público interessado. O próximo passo é transformar iniciativas bem-sucedidas em uma rede contínua, descentralizada e acessível.
Com planejamento, financiamento e acompanhamento, o paradesporto pode alcançar mais municípios, revelar novos talentos e ampliar a participação de pessoas com deficiência em todas as etapas da vida. A inclusão, nesse contexto, não se resume à presença em uma competição: envolve garantir o direito de praticar esporte, conviver, competir e escolher seus próprios caminhos.