Os saberes das comunidades tradicionais no Amazonas estão presentes na forma de cultivar a terra, manejar a floresta, produzir artesanato, preparar alimentos, cuidar da saúde, preservar línguas e organizar a vida coletiva. Esses conhecimentos são transmitidos entre gerações e fazem parte da identidade de povos indígenas, ribeirinhos, extrativistas, quilombolas e outros grupos que vivem no estado.
Nos últimos anos, diferentes iniciativas passaram a apoiar o registro, a transmissão e o uso sustentável desses conhecimentos. As ações envolvem instituições públicas, universidades, organizações da sociedade civil, unidades de conservação e as próprias comunidades.
Para quem deseja conhecer, apoiar ou participar de iniciativas desse tipo, é importante verificar quem coordena o projeto, qual é o público atendido, se há edital aberto e quais são os critérios de participação. A seguir, veja alguns exemplos de ações relacionadas aos saberes tradicionais no Amazonas.
O que são saberes de comunidades tradicionais
De acordo com a definição adotada pelo governo federal, povos e comunidades tradicionais são grupos culturalmente diferenciados que possuem formas próprias de organização social e utilizam territórios e recursos naturais para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica. Esses grupos também produzem e transmitem conhecimentos, inovações e práticas por meio da tradição.
No Amazonas, esses saberes podem estar relacionados ao cultivo da mandioca, à produção de farinha, ao uso de plantas medicinais, à pesca, ao manejo de quelônios e do pirarucu, à coleta de castanhas, à confecção de cestarias, às festas, às narrativas orais e às línguas indígenas.
O reconhecimento dessas práticas não significa apenas preservar uma memória. Também pode contribuir para a geração de renda, a conservação ambiental, a educação, a segurança alimentar e o fortalecimento da autonomia das comunidades.
Prospera na Floresta apoia sociobioeconomia e turismo comunitário
Uma das iniciativas atualmente voltadas ao Amazonas é o projeto Prospera na Floresta, apoiado pelo Fundo Amazônia e executado pela Fundação Amazônia Sustentável. O projeto tem como objetivo fortalecer atividades produtivas sustentáveis, o turismo de base comunitária e o empreendedorismo ligado à sociobioeconomia em áreas protegidas do estado.
O público inclui comunidades tradicionais, povos indígenas e quilombolas que vivem em áreas protegidas. Entre as ações previstas estão o apoio a empreendimentos comunitários, a formação de lideranças, o incentivo a negócios sustentáveis e o fortalecimento de iniciativas desenvolvidas em territórios indígenas e unidades de conservação.
Em setembro de 2026, o projeto mantinha chamada para empreendimentos de turismo sustentável de base comunitária em unidades de conservação do Amazonas. A seleção é destinada a pousadas e restaurantes comunitários liderados por povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas ou outras populações tradicionais localizados nas áreas contempladas.
A chamada prevê diferentes modalidades de apoio, incluindo kits tecnológicos, capital semente e recursos para aceleração de empreendimentos. As inscrições estão previstas para ocorrer até 5 de outubro de 2026, conforme as regras do edital. Os interessados devem consultar diretamente o edital de turismo sustentável da FAS para verificar localidades, documentos, critérios e etapas.
Mapeamento social registra territórios e formas de organização
O projeto Nova Cartografia Social da Amazônia é outro exemplo de iniciativa que valoriza os conhecimentos produzidos pelas comunidades. Coordenado pela Universidade do Estado do Amazonas e pela Fundação de Apoio Institucional Muraki, o projeto realizou mapeamentos sociais com a participação de povos e comunidades tradicionais.
A proposta não se limita à elaboração técnica de mapas. Os próprios moradores participam da identificação de atividades econômicas, áreas de uso dos recursos naturais, formas de organização social e outros aspectos considerados importantes pela comunidade.
Segundo o Fundo Amazônia, o projeto teve como objetivo mapear 27 comunidades do bioma Amazônia e fortalecer a rede de pesquisa relacionada aos povos tradicionais. Parte do trabalho envolveu a capacitação de integrantes das comunidades para registrar pontos de GPS e inserir nos mapas as informações consideradas relevantes por seus próprios grupos.
Esse tipo de mapeamento pode ser utilizado em processos de organização territorial, educação, pesquisa e diálogo com órgãos públicos. Para acompanhar publicações e resultados, é possível consultar a página do projeto Nova Cartografia Social da Amazônia.
Iphan apoia o registro do patrimônio imaterial
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, trabalha com instrumentos de identificação e salvaguarda do patrimônio cultural imaterial. No Amazonas, o órgão já realizou inventários e apoiou projetos relacionados a povos indígenas, comunidades ribeirinhas, festas, sistemas agrícolas, línguas e artesanato.
Entre os exemplos está o projeto Artesanato e identidade cultural no Médio Solimões, desenvolvido em comunidades ribeirinhas das reservas Mamirauá e Amanã. A ação acompanhou artesãos, identificou peças produzidas localmente e promoveu atividades de reflexão sobre o artesanato como expressão de identidade cultural.
O projeto também registrou o papel das mulheres na produção artesanal e contribuiu para o reconhecimento dos conhecimentos usados na confecção, no uso e na comercialização das peças. A experiência mostra como uma iniciativa de documentação pode ser combinada com formação, pesquisa e valorização da autoestima das artesãs e dos artesãos.
O Iphan também registra referências culturais do Alto Rio Negro, manifestações ribeirinhas, festas religiosas e práticas associadas a diferentes povos indígenas. Entre os bens reconhecidos estão o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro e a Cachoeira de Iauaretê, lugar sagrado dos povos indígenas dos rios Uaupés e Papuri.
Informações sobre inventários e ações de patrimônio podem ser consultadas na página do Iphan no Amazonas.
Ninho de Línguas e Saberes Ancestrais fortalece a cultura Kokama
O projeto Ninho de Línguas e Saberes Ancestrais é uma iniciativa dedicada ao fortalecimento da língua e da cultura do povo Kokama. A ação promove a convivência entre crianças, mães, avós, professores e outros integrantes da comunidade para ampliar a transmissão dos conhecimentos tradicionais.
Uma das experiências ocorreu com a Associação das Mulheres Kokama Lua Verde, em Manaus. O projeto relacionou o ensino da língua Kokama ao plantio de plantas medicinais, aproximando o aprendizado linguístico de práticas culturais e conhecimentos sobre a floresta.
O Centro de Ciências e Saberes Tradicionais Kokama Lua Verde também funciona como espaço para encontros, cursos, formação, atividades de saúde e produção de roupas, bolsas e colares. A iniciativa mostra que a valorização cultural pode estar ligada à educação, à sustentabilidade e à geração de renda.
O projeto foi apoiado por uma articulação do Ministério dos Povos Indígenas, pelo Fundo da Embaixada da Nova Zelândia e pelo Museu da Amazônia, e promovido pela organização Kokama. Para conhecer a experiência, consulte a reportagem publicada pelo Ministério dos Povos Indígenas.
Pesquisa aproxima conhecimentos tradicionais e ciência
Outra frente de valorização ocorre por meio de pesquisas que aproximam universidades, órgãos públicos e comunidades. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, a Fapeam, já apoiou estudos sobre povos tradicionais, cultura indígena, línguas, educação, saúde e estratégias de desenvolvimento relacionadas à realidade amazônica.
Em edital de pesquisa integrada para a qualidade de vida no Amazonas, a fundação incluiu entre os objetivos a articulação entre saberes acadêmicos e tradicionais. O programa também prevê pesquisas sobre tecnologias sociais para ampliar o acesso à saúde em comunidades remotas e vulneráveis.
Na prática, iniciativas desse tipo podem contribuir para desenvolver soluções adequadas às condições locais, desde que a participação das comunidades seja respeitada e que seus conhecimentos sejam tratados com consentimento, reconhecimento e responsabilidade.
Pesquisadores, estudantes e organizações interessados devem acompanhar os editais da Fapeam e verificar as regras específicas de cada chamada.
Gestão territorial e conservação usam conhecimentos locais
As unidades de conservação também são espaços importantes para a valorização dos saberes tradicionais. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, atua em reservas extrativistas, florestas nacionais e outras unidades de uso sustentável onde vivem comunidades tradicionais.
Nessas áreas, o conhecimento local pode contribuir para o planejamento do uso dos recursos naturais, o monitoramento do território e a conservação da biodiversidade. A atuação institucional inclui ações voltadas ao desenvolvimento sustentável e à melhoria da qualidade de vida das comunidades extrativistas.
Projetos de gestão territorial indígena apoiados no sul do Amazonas, por exemplo, trabalharam com planos de gestão ambiental e territorial, proteção territorial, manejo sustentável e formação. Também foram apoiadas estruturas como embarcações, equipamentos de comunicação e locais para armazenamento de produtos extrativistas.
Antes de visitar uma unidade de conservação ou buscar participação em uma atividade comunitária, é necessário verificar as regras da área, a existência de autorização e os canais oficiais da unidade ou da organização responsável. O acesso a territórios indígenas e comunidades tradicionais deve respeitar as decisões locais.
Como acompanhar ou apoiar essas iniciativas
Quem deseja acompanhar oportunidades relacionadas aos saberes das comunidades tradicionais no Amazonas pode adotar alguns cuidados:
- consultar páginas oficiais de órgãos como Iphan, ICMBio, Ministério dos Povos Indígenas, Fapeam e Fundo Amazônia;
- ler o edital completo antes de enviar uma inscrição;
- verificar se a chamada é destinada a pessoa física, organização comunitária, associação, cooperativa ou empreendimento;
- confirmar a área de abrangência, os documentos exigidos e o prazo de inscrição;
- observar se o projeto prevê participação efetiva da comunidade e respeito aos protocolos culturais;
- evitar divulgar informações sensíveis sobre territórios, conhecimentos sagrados ou práticas tradicionais sem autorização;
- priorizar a compra de produtos diretamente de artesãos, cooperativas e organizações comunitárias identificadas.
Também é possível apoiar essas ações valorizando produtos da sociobioeconomia, participando de atividades de turismo comunitário autorizadas e divulgando projetos conduzidos pelas próprias comunidades. O apoio, porém, deve respeitar a autonomia dos grupos e não transformar conhecimentos tradicionais em mercadoria sem consentimento.
Por que essas iniciativas são importantes
Os saberes tradicionais ajudam a explicar como diferentes povos se relacionam com os rios, as florestas e os ciclos da natureza. Quando são reconhecidos em projetos de educação, pesquisa, patrimônio, turismo e produção sustentável, esses conhecimentos deixam de ser tratados apenas como memória e passam a integrar políticas de desenvolvimento e conservação.
No Amazonas, a valorização precisa estar associada ao protagonismo das comunidades. Isso significa garantir participação nas decisões, respeito às formas próprias de organização, reconhecimento da autoria coletiva e repartição justa de benefícios quando houver uso econômico de produtos ou conhecimentos.
As iniciativas existentes mostram caminhos diversos: registrar uma língua, mapear um território, apoiar uma pousada comunitária, fortalecer o artesanato, documentar práticas agrícolas ou financiar pesquisas em saúde. Em comum, elas indicam que preservar os saberes das comunidades tradicionais também é preservar modos de vida, identidades culturais e estratégias de cuidado com a floresta.
