sábado, 10 de outubro de 2026
Cidades

Maués: como a cidade do Amazonas se tornou conhecida nacionalmente pelo guaraná

Maués, no Amazonas, construiu sua identidade econômica e cultural em torno do guaraná. A história da cidade envolve o conhecimento dos povos Sateré-Mawé, o cultivo tradicional, a expansão da produção e o reconhecimento oficial como Capital Nacional do Guaraná.

Maués, no leste do Amazonas, é conhecida em todo o Brasil como a cidade do guaraná. A associação não surgiu apenas da produção agrícola. Ela foi construída ao longo de séculos de conhecimento indígena, práticas de cultivo, comércio, pesquisa científica, industrialização e manifestações culturais ligadas ao fruto.

Em setembro de 2025, essa identidade ganhou reconhecimento oficial. A Lei nº 15.216 conferiu a Maués o título de Capital Nacional do Guaraná. A medida formalizou, no plano nacional, uma reputação que já fazia parte da história econômica e cultural do município.

O território do povo Sateré-Mawé

A história do guaraná em Maués está diretamente ligada aos Sateré-Mawé, povo indígena tradicionalmente associado à domesticação e ao cultivo da planta. O guaraná, conhecido cientificamente como Paullinia cupana, é uma espécie originária da Amazônia e ocupa lugar central nos conhecimentos, nos rituais e na alimentação desse povo.

Registros históricos reunidos pelo Arquivo Nacional apontam que viajantes e pesquisadores europeus descreveram, ainda no século 19, o preparo da bebida de guaraná pelos Sateré-Mawé. O conhecimento sobre a planta, porém, é anterior à documentação produzida pelos colonizadores e foi transmitido entre gerações pelas comunidades indígenas.

Antes da transformação do guaraná em produto industrial, os povos da região já dominavam técnicas de coleta, cultivo, beneficiamento e conservação das sementes. O fruto era processado, moldado em bastões e utilizado no preparo de bebidas. A forma tradicional de consumo ajudou a consolidar o guaraná como um produto de valor alimentar, medicinal e simbólico.

Da planta nativa ao produto comercial

O guaranázeiro é um arbusto ou trepadeira que produz frutos de coloração avermelhada quando maduros. Dentro deles estão as sementes, principal matéria-prima usada na produção de pó, extratos, xaropes, bebidas e outros produtos.

Em Maués, o cultivo ganhou importância por causa da adaptação da planta às condições ambientais da região e da experiência acumulada pelos produtores. O clima quente e úmido, combinado a um período de menor intensidade de chuvas, favorece o desenvolvimento do guaranazeiro. A ficha técnica da Indicação Geográfica de Maués, publicada pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial, destaca a relação entre as condições naturais do município, a tradição familiar e as técnicas de cultivo.

Durante boa parte do século 20, a atividade se tornou uma das bases da economia local. O guaraná passou a ser comercializado em maior escala e despertou o interesse da indústria de bebidas. A expansão do mercado ampliou a circulação do produto e ajudou a projetar o nome de Maués para além do Amazonas.

A expansão da produção no século 20

Nas décadas de 1970 e 1980, Maués viveu um período de forte destaque na produção brasileira de guaraná. Documentos técnicos registram que o município chegou a responder por parcela muito expressiva da produção nacional, em um momento em que o cultivo ainda estava fortemente concentrado na Amazônia.

Esse cenário começou a mudar com a expansão dos plantios em outros estados, especialmente na Bahia e em Mato Grosso. A entrada de novas áreas produtoras alterou a participação relativa de Maués no mercado brasileiro. Mesmo assim, o município preservou importância econômica, cultural e simbólica, principalmente pela qualidade associada ao guaraná amazônico e pela continuidade das práticas tradicionais.

O processo também revelou desafios. A produtividade dos guaranazais foi afetada pela idade das plantas, por doenças, por pragas e pela necessidade de aprimorar o manejo. A antracnose, causada por um fungo que ataca o guaranazeiro, tornou-se um dos principais problemas enfrentados pelos produtores do Amazonas.

Pesquisa científica e melhoramento do guaranazeiro

A pesquisa agrícola passou a ter papel decisivo na recuperação e na modernização da cultura. A Embrapa Amazônia Ocidental iniciou trabalhos de melhoramento genético do guaranazeiro ainda na década de 1970, com seleção de plantas consideradas superiores e estudos sobre resistência a doenças, produtividade e adaptação.

Esse trabalho resultou no desenvolvimento de cultivares clonais, produzidas por propagação vegetativa. A estratégia permitiu multiplicar plantas com características desejáveis e oferecer alternativas aos agricultores diante das perdas causadas por doenças e da baixa produtividade de parte dos plantios antigos.

Os estudos também contribuíram para aperfeiçoar a produção de mudas, o espaçamento entre plantas, a adubação, o manejo das lavouras e os cuidados de colheita e pós-colheita. Dessa forma, a história recente do guaraná em Maués não se resume à tradição: ela também envolve a incorporação de conhecimentos técnicos e científicos ao trabalho dos produtores.

O reconhecimento como Indicação Geográfica

Outro marco importante foi o registro de Maués como Indicação de Procedência para o guaraná. Segundo a lista oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária, o registro foi concedido pelo INPI em janeiro de 2018, tendo como requerente a Associação dos Produtores de Guaraná da Indicação Geográfica de Maués.

Uma Indicação de Procedência reconhece que determinado nome geográfico se tornou conhecido como centro de produção, extração ou fabricação de um produto. No caso de Maués, o registro relaciona o nome do município à reputação construída pelo guaraná produzido na região.

O registro não significa que todo guaraná brasileiro seja produzido em Maués, nem estabelece exclusividade sobre a planta. Seu objetivo é proteger a reputação vinculada à origem e estabelecer regras para o uso da indicação pelos produtores habilitados, conforme as especificações da própria indicação geográfica.

O guaraná na identidade cultural de Maués

A relação com o fruto também aparece nas festas, nas narrativas e nos símbolos do município. A Festa do Guaraná, realizada em Maués desde o fim da década de 1970, tornou-se um dos principais eventos culturais associados à cidade. A programação reúne apresentações artísticas, manifestações populares e referências às tradições indígenas relacionadas ao guaraná.

Entre as narrativas apresentadas durante a festa está a lenda de Cereçaporanga. Como outras histórias de origem presentes na cultura amazônica, a lenda pertence ao campo da tradição e da memória coletiva. Ela não deve ser confundida com uma explicação científica sobre a origem da planta, mas ajuda a compreender como o guaraná é representado no imaginário cultural de Maués.

A fruta também aparece em produtos artesanais, na culinária, no comércio local e nas estratégias de promoção turística. A identidade de “Terra do Guaraná” funciona, assim, como uma ponte entre agricultura, cultura, turismo e memória social.

Uma economia formada por pequenos produtores

Apesar da presença de empresas e de cadeias industriais, a produção de guaraná em Maués está fortemente ligada à agricultura familiar. Pequenos produtores mantêm áreas de cultivo em comunidades rurais e utilizam conhecimentos transmitidos entre gerações, combinados com orientações técnicas de órgãos de pesquisa e assistência agrícola.

A atividade movimenta etapas que vão além do plantio. O trabalho inclui a produção de mudas, o cuidado com os guaranazais, a colheita, a retirada dos frutos, a secagem das sementes e o beneficiamento. A comercialização pode ocorrer na forma de sementes secas, bastões, pó ou matéria-prima para produtos industrializados.

O guaraná também tem importância para os povos indígenas da região. Em reportagem publicada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas, agricultores e lideranças Sateré-Mawé relatam o papel do fruto na vida comunitária, na alimentação, na disposição para o trabalho e na preservação de conhecimentos tradicionais.

O que torna o guaraná de Maués reconhecido

A reputação do guaraná de Maués resulta de uma combinação de fatores. Entre eles estão as condições ambientais do município, a presença histórica do cultivo, o conhecimento dos produtores, a influência dos Sateré-Mawé, as técnicas de beneficiamento e a associação do produto à origem amazônica.

O INPI registra que o guaraná produzido na região apresenta teor de cafeína considerado elevado em comparação com outras referências da espécie. Essa característica é uma das razões pelas quais o fruto ganhou valor comercial e passou a ser utilizado em bebidas, cosméticos, produtos farmacêuticos e suplementos.

É importante, porém, distinguir tradição e publicidade de comprovação científica. O guaraná contém cafeína e pode produzir efeito estimulante, mas afirmações sobre benefícios à saúde precisam ser avaliadas conforme evidências específicas e não devem ser generalizadas a partir de lendas ou da reputação cultural do produto.

Capital Nacional do Guaraná

O título de Capital Nacional do Guaraná, concedido pela Lei nº 15.216, de 22 de setembro de 2025, reconhece oficialmente a importância de Maués para a história do fruto no Brasil. A lei entrou em vigor na data de sua publicação no Diário Oficial da União, em 23 de setembro de 2025.

O reconhecimento nacional não encerra os desafios da cadeia produtiva. A produção ainda depende de controle de doenças, melhoria do manejo, acesso a mercados, valorização do trabalho rural e proteção dos conhecimentos tradicionais. Também exige que a expansão comercial preserve a participação das comunidades e dos agricultores que mantêm a cultura do guaraná no território.

Com população de 61.204 pessoas no Censo 2022, segundo o IBGE, Maués continua sendo um município de grande extensão territorial e baixa densidade demográfica. Nesse espaço, o guaraná permanece mais do que uma lavoura: é parte da formação histórica da cidade, da economia regional e da identidade amazônica.

Por isso, contar a história de Maués é também contar a trajetória do guaraná no Brasil. A cidade se tornou nacionalmente conhecida porque conseguiu reunir, em torno de um mesmo fruto, saberes indígenas, produção familiar, pesquisa científica, indústria, turismo e cultura. O título oficial apenas dá nome a uma relação que já estava presente na vida do município há muitas gerações.