Quando se fala em esporte no Amazonas, futebol, futsal, vôlei e lutas costumam ocupar o centro das atenções. Fora desse circuito mais conhecido, porém, o estado também reúne praticantes de modalidades que aparecem em projetos escolares, competições estudantis, iniciativas comunitárias e atividades ligadas às culturas indígenas.
Badminton, ultimate frisbee, slackline, tiro com arco, kart e esportes tradicionais indígenas são exemplos de práticas que já tiveram presença em eventos ou programas realizados no Amazonas. Em alguns casos, trata-se de modalidades organizadas em torneios e projetos permanentes. Em outros, a participação ocorre em festivais, demonstrações ou ações de formação esportiva.
Essa diferença é importante porque não há, para todas essas modalidades, o mesmo nível de estrutura, número de praticantes ou frequência de competições. Ainda assim, os registros mostram que o esporte amazonense é mais diversificado do que a imagem concentrada nas modalidades de maior audiência.
Badminton ganhou espaço nos Jogos Escolares
O badminton, praticado com raquetes e uma peteca chamada volante, passou a integrar os Jogos Escolares do Amazonas em 2012, ao lado do skate. Naquele ano, a competição estadual incluiu 27 modalidades, entre elas também canoagem, corrida de orientação, polo aquático, remo, triatlo e xadrez. (portalmarcossantos.com.br)
A presença em competições escolares é uma das principais portas de entrada para modalidades menos conhecidas. Nas escolas, o badminton pode ser adaptado a espaços cobertos e exige equipamentos mais leves do que esportes como tênis. A dinâmica combina deslocamentos rápidos, coordenação motora e controle de precisão.
Em 2023, o badminton voltou a aparecer entre as modalidades dos Jogos Escolares do Amazonas. A competição reuniu mais de 7,6 mil atletas de 36 municípios, segundo informações divulgadas sobre a edição. O torneio também foi apresentado como uma oportunidade de ampliar a visibilidade do esporte entre os estudantes. (portaldoamazonas.com)
A presença do badminton no calendário escolar não significa que a modalidade tenha a mesma capilaridade do futebol ou do futsal. Ela indica, no entanto, que o esporte já faz parte da formação competitiva de estudantes amazonenses e pode servir de caminho para novos atletas.
Ultimate frisbee combina corrida, passe e autonomia
O ultimate frisbee é disputado com um disco e reúne elementos de esportes como basquete e futebol americano. O objetivo é avançar pelo campo por meio de passes e receber o disco na zona de pontuação adversária. Uma característica particular é a ausência de árbitro em muitas competições: os próprios jogadores são responsáveis por aplicar as regras e resolver eventuais conflitos.
Em 2019, Manaus teve uma equipe representante em uma competição nacional. O time Ouroboros, formado por estudantes da Universidade Federal do Amazonas, participou da Taça Pindorama, em Uberlândia, Minas Gerais. A delegação amazonense era composta por dez atletas, e os treinamentos ocorriam de duas a três vezes por semana. (manaus.am.gov.br)
O registro da Prefeitura de Manaus classificou o ultimate frisbee como uma modalidade ainda pouco conhecida no estado. A prática também se destaca por ser mista e por valorizar o chamado espírito de jogo, princípio que atribui aos participantes a responsabilidade pela conduta esportiva e pela resolução de situações durante a partida.
Para o Amazonas, o desafio está em manter grupos regulares de treinamento e ampliar o acesso a campos e equipamentos. A modalidade depende de organização coletiva, mas pode ser praticada em áreas abertas e não exige uma estrutura tão específica quanto esportes que precisam de quadras ou piscinas.
Slackline saiu dos espaços de lazer e chegou às escolas
O slackline consiste em caminhar e realizar movimentos sobre uma fita tensionada entre dois pontos de ancoragem. A atividade exige equilíbrio, concentração e controle corporal. Embora seja frequentemente associada a parques e espaços de lazer, também pode ser utilizada como conteúdo de educação física.
No Amazonas, um projeto apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas levou o slackline a aulas práticas de educação física. Mais de 200 estudantes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental conheceram a modalidade por meio da iniciativa, que envolveu escolas públicas estaduais e municipais de Manaus. (fapeam.am.gov.br)
A inserção em ambiente escolar amplia o significado do slackline. Em vez de aparecer somente como atividade recreativa, a modalidade pode ser trabalhada para desenvolver equilíbrio, percepção espacial e confiança nos movimentos. A prática, contudo, exige supervisão, equipamentos adequados e atenção às condições de segurança.
O exemplo também mostra como esportes pouco conhecidos podem ser introduzidos sem depender, inicialmente, de grandes competições. A escola funciona como espaço de experimentação e pode revelar interesses que não aparecem nas modalidades tradicionais.
Tiro com arco aproxima esporte e identidade indígena
O tiro com arco é uma modalidade olímpica, mas no Amazonas também aparece relacionado à transmissão de conhecimentos e habilidades de povos indígenas. Em 2016, a Fundação Amazônia Sustentável informou o desenvolvimento do Projeto Arquearia Indígena em parceria com a Federação Amazonense de Tiro com Arco e a então Secretaria de Estado de Juventude, Esporte e Lazer.
A iniciativa tinha como objetivo apoiar atletas indígenas no alto rendimento e, ao mesmo tempo, valorizar a cultura e a identidade dos povos originários do estado. Uma das atletas apoiadas pelo projeto tornou-se a primeira indígena brasileira a disputar um campeonato Pan-Americano na modalidade, segundo a organização. (fas-amazonia.org)
A modalidade exige precisão, controle respiratório, postura e repetição técnica. No contexto amazônico, o arco e flecha ainda pode ser interpretado a partir de duas dimensões diferentes: como esporte regulamentado, com alvos, distâncias e equipamentos padronizados, e como prática tradicional ligada à vida comunitária, à caça e à transmissão cultural.
Essa distinção evita tratar manifestações culturais como simples versões recreativas de esportes olímpicos. Em competições formais, prevalecem regras esportivas específicas. Em comunidades indígenas, o uso do arco e flecha pode ter significados mais amplos e não necessariamente estar vinculado ao alto rendimento.
Kart entrou em programas de formação esportiva
O kart também aparece entre as modalidades incorporadas à oferta esportiva do Amazonas. Relatório do governo estadual sobre as atividades de 2025 informou a ampliação de projetos com a inclusão do kart e registrou mais de 244 mil atendimentos em nove meses no Programa Esporte e Lazer na Capital e Interior, conhecido como Pelci. (amazonas.am.gov.br)
O kart exige pista apropriada, equipamentos de proteção, orientação técnica e regras de segurança. Por isso, sua expansão depende de estruturas específicas e tende a ser mais limitada do que a de esportes que podem ser praticados em quadras escolares ou campos comunitários.
Apesar das barreiras de acesso, a modalidade oferece contato inicial com conceitos de condução, velocidade, tomada de decisão e controle do veículo. Para jovens interessados no automobilismo, o kart costuma ser uma das portas de entrada para competições de maior nível.
Jogos indígenas preservam modalidades tradicionais
Em Manaus, eventos indígenas já reuniram provas que não fazem parte do calendário esportivo convencional. Nos Jogos Culturais realizados na aldeia Gavião, em 2015, foram anunciadas atividades como zarabatana, futebol aquático, arco e flecha e a chamada prova do caçador, além de corrida em trilha e corrida de saco. (ge.globo.com)
Essas práticas não devem ser analisadas apenas pelos critérios de federações esportivas ou competições olímpicas. Elas também cumprem funções culturais, educativas e comunitárias. A disputa pode reproduzir habilidades associadas à vida tradicional, reforçar vínculos entre aldeias e apresentar conhecimentos indígenas ao público urbano.
O futebol aquático, por exemplo, foi descrito no registro do evento como uma atividade disputada com os pés dentro da água. Já a zarabatana envolve o uso de um instrumento tradicional para lançar dardos. As regras, os equipamentos e o significado podem variar conforme a comunidade e o tipo de evento.
Por isso, é mais preciso falar em jogos e práticas esportivas indígenas do que tentar enquadrar todas essas manifestações como modalidades esportivas padronizadas. O valor dessas atividades está também na memória, na identidade e na autonomia cultural dos povos que as praticam.
O futebol de cabeça e o cuidado com as referências culturais
O Centro de Mídias de Educação do Amazonas incluiu o xikunahity, ou futebol de cabeça, em material didático sobre esportes de invasão. A modalidade é apresentada ao lado do basquetebol e do futsal em conteúdo destinado ao ensino fundamental. (centrodemidias.am.gov.br)
No xikunahity, a bola é rebatida exclusivamente com a cabeça. A prática é tradicionalmente associada a povos indígenas do Mato Grosso, como os Haliti-Paresi, e não deve ser apresentada como uma criação originária do Amazonas. Sua presença em material educacional amazonense, contudo, mostra como conhecimentos esportivos indígenas podem ser utilizados no ensino de educação física.
A abordagem exige cuidado para não apagar a origem das práticas. Divulgar modalidades indígenas não significa atribuí-las ao estado onde foram ensinadas ou demonstradas. O correto é preservar a referência aos povos e territórios de origem, reconhecendo que os intercâmbios culturais podem levar essas manifestações a outros lugares.
Por que essas modalidades ainda são pouco conhecidas?
O principal obstáculo é a desigualdade de estrutura. Modalidades com menor audiência costumam ter menos quadras, equipamentos, treinadores, competições e espaços de divulgação. Em um estado de grandes distâncias e com deslocamentos muitas vezes dependentes de rios ou do transporte aéreo, a formação de circuitos esportivos regulares também pode ser mais complexa.
As escolas, universidades, projetos sociais e eventos culturais cumprem papel decisivo nesse processo. Eles permitem que estudantes e comunidades tenham contato inicial com esportes que dificilmente apareceriam no cotidiano. A continuidade, porém, depende de calendário, profissionais capacitados, segurança, financiamento e oportunidades de competição.
As modalidades esportivas pouco conhecidas no Amazonas não formam um bloco homogêneo. Badminton e ultimate frisbee têm regras esportivas internacionais; slackline pode ser usado em atividades recreativas e educacionais; kart exige estrutura motorizada; tiro com arco combina competição formal e referências culturais; e os jogos indígenas carregam significados próprios.
O conjunto revela um cenário esportivo em transformação. Ao lado das modalidades tradicionais, surgem alternativas capazes de ampliar a participação, descobrir talentos e valorizar conhecimentos locais. Para que deixem de ser exceções, essas práticas precisam de visibilidade, organização e políticas que considerem as características geográficas e culturais do Amazonas.