O paradesporto no Amazonas deixou de ser apenas uma alternativa de participação esportiva e passou a ocupar espaço no alto rendimento nacional. Nos últimos anos, atletas do estado chegaram a seleções brasileiras, disputaram Jogos Paralímpicos e conquistaram medalhas em competições escolares e nacionais.
As histórias envolvem diferentes modalidades, faixas etárias e trajetórias. Há atletas que começaram em projetos escolares, competidores que encontraram no esporte uma nova possibilidade de vida e jovens que já aparecem como parte da renovação do paradesporto amazonense. Em comum, estão a rotina de treinos, a necessidade de estrutura e a busca por oportunidades de competição.
O desempenho de Maria de Fátima Castro nos Jogos Paralímpicos de Paris, em 2024, é um dos principais marcos recentes. No halterofilismo, a atleta conquistou a medalha de bronze na categoria até 67 quilos, levantando 133 quilos. O resultado também foi registrado como a primeira medalha paralímpica do Amazonas em uma edição dos Jogos. (cmm.am.gov.br)
Maria de Fátima e a medalha histórica em Paris
Maria de Fátima Castro conheceu o halterofilismo em 2017, mas só passou a se dedicar à modalidade de forma mais intensa em 2019, após o incentivo de colegas e do treinador. A trajetória até Paris incluiu participação em competições internacionais e a conquista de uma medalha de bronze nos Jogos Parapan-Americanos de Santiago, em 2023, antes do pódio paralímpico.
Em 6 de setembro de 2024, em Paris, a amazonense levantou 133 quilos e garantiu o bronze. A marca também a colocou como recordista das Américas na categoria até 67 quilos naquele momento, segundo informações divulgadas após a prova. O resultado ampliou a presença do Amazonas no mapa do esporte paralímpico brasileiro e deu visibilidade a uma modalidade que exige força, técnica, controle e preparação específica. (cmm.am.gov.br)
A conquista não pode ser explicada apenas pela ideia de superação individual. O caminho até o alto rendimento depende de treinamento contínuo, acompanhamento técnico, equipamentos, viagens e participação em torneios que permitam ao atleta acumular experiência. No caso de Maria de Fátima, o apoio do Bolsa Esporte Estadual também foi citado como parte da preparação para os Jogos de Paris. (cmm.am.gov.br)
Da escola à seleção brasileira
Outra trajetória de destaque é a de Laiana Rodrigues, atleta do vôlei sentado. Nascida e criada em Manaus, ela iniciou a prática esportiva aos 14 anos, em uma escola da rede estadual, e participou dos Jogos Escolares do Amazonas. Mais tarde, além de competir, também atuou como treinadora em competições escolares.
Em 2024, aos 42 anos, Laiana foi convocada pela terceira vez para a seleção brasileira feminina de vôlei sentado e representou o país nos Jogos Paralímpicos de Paris. A história mostra como o esporte escolar pode funcionar como porta de entrada para a carreira competitiva, desde que exista continuidade entre a iniciação, os campeonatos estaduais e o alto rendimento. (seduc.am.gov.br)
O caso também evidencia a importância dos Jogos Escolares do Amazonas na identificação de talentos. Antes de chegar ao cenário internacional, a atleta passou por competições estudantis e pela seleção amazonense de voleibol. Esse percurso aproxima a escola das federações, dos clubes e das equipes nacionais, criando uma cadeia de formação que pode levar anos para se consolidar.
O crescimento do paradesporto escolar
O movimento começa ainda na adolescência. Um estudo publicado em 2026 analisou a participação do Amazonas nas Paralimpíadas Escolares entre 2009 e 2023 e concluiu que o estado esteve presente em todas as edições do período. A pesquisa identificou predominância de atletas amazonenses no atletismo e na natação, além de um aumento gradual no número de modalidades com representantes do estado.
O levantamento aponta que a maior delegação amazonense foi registrada em 2019, com 48 integrantes. O melhor resultado geral ocorreu na edição de 2009, quando o estado terminou na 11ª colocação. Ao mesmo tempo, os pesquisadores observaram que as delegações participaram de menos da metade das modalidades oferecidas em cada edição, indicando espaço para ampliar a diversidade esportiva e a formação de novos competidores. (cev.org.br)
Os resultados de 2025 reforçaram a evolução da base. No primeiro bloco das Paralimpíadas Escolares daquele ano, a delegação do Amazonas conquistou 35 medalhas no atletismo: 17 de ouro, 11 de prata e sete de bronze. Também foram registrados oito recordes escolares nacionais, e o estado aparecia na 13ª colocação geral após essa etapa.
Entre os destaques estava Ismael Martins Tavares, de 16 anos, que conquistou três medalhas de ouro e estabeleceu dois recordes escolares nas provas dos 100 metros e dos 400 metros da classe T45, além de vencer o salto em distância. Segundo a Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar, o atleta treinava diariamente na Vila Olímpica de Manaus. (seduc.am.gov.br)
Competição, classificação e preparação
O paradesporto reúne modalidades com regras próprias e sistemas de classificação funcional. A classificação tem o objetivo de organizar os atletas de forma a tornar a disputa mais equilibrada, considerando o impacto da deficiência na execução dos movimentos exigidos por cada esporte. O processo varia conforme a modalidade e é parte central das competições oficiais.
Entre as modalidades praticadas por atletas amazonenses estão o atletismo, a natação, o halterofilismo, o vôlei sentado e o tênis de mesa. Cada uma exige preparação específica. No atletismo, por exemplo, o treinamento pode envolver provas de pista, saltos e lançamentos. No halterofilismo, a força máxima precisa ser combinada com técnica, estabilidade e controle durante a execução.
A competição também impõe desafios logísticos. O Amazonas tem dimensões territoriais extensas e concentra grande parte da estrutura esportiva em Manaus. Para atletas do interior ou de comunidades mais distantes, o acesso a treinos regulares, materiais adaptados e viagens para torneios pode ser decisivo para a continuidade da carreira. A distância entre centros de treinamento e locais de competição é um fator que influencia custos e planejamento.
Por isso, a formação de atletas depende de uma rede que inclui escolas, professores de educação física, técnicos, profissionais de saúde, associações, clubes e políticas públicas. Sem essa articulação, muitos talentos podem permanecer restritos à participação local, sem alcançar os campeonatos que permitem evolução técnica e reconhecimento nacional.
O papel das políticas de incentivo
O paradesporto brasileiro conta com programas de apoio que vão da iniciação ao alto rendimento. A Secretaria Nacional de Paradesporto informa que a política pública deve ampliar o acesso de pessoas com deficiência à prática esportiva em diferentes idades e níveis de desempenho. O Comitê Paralímpico Brasileiro administra, no país, as modalidades paralímpicas e trabalha com sistemas de classificação próprios para cada esporte. (gov.br)
Em 2024, o Brasil alcançou sua melhor campanha histórica nos Jogos Paralímpicos, com 89 medalhas, sendo 25 de ouro, 26 de prata e 38 de bronze. O país terminou entre os cinco primeiros colocados. Embora o resultado seja nacional, ele contribui para ampliar a visibilidade de atletas de estados fora dos grandes centros esportivos, como o Amazonas. (gov.br)
O apoio financeiro, no entanto, não substitui a estrutura permanente. Bolsas e patrocínios ajudam a custear materiais, deslocamentos e preparação, mas a formação de novos atletas exige espaços acessíveis, competições regulares e profissionais capacitados. A consolidação do paradesporto depende de resultados imediatos, mas também de políticas que mantenham crianças e adolescentes no esporte por vários anos.
Mais do que medalhas
As histórias de Maria de Fátima, Laiana Rodrigues e dos jovens que disputaram as Paralimpíadas Escolares mostram que o paradesporto amazonense reúne diferentes momentos de uma mesma cadeia: descoberta, formação, competição e alto rendimento.
A medalha de Paris representa um ponto de chegada, mas também cria uma referência para quem está começando. A presença de uma atleta amazonense no pódio paralímpico amplia as expectativas de estudantes e competidores que treinam em Manaus e em outros municípios. Da mesma forma, recordes escolares indicam que a base pode produzir resultados expressivos quando encontra orientação e condições de treinamento.
O desafio agora é transformar conquistas pontuais em continuidade. Para isso, o Amazonas precisa ampliar o número de modalidades, fortalecer as competições locais, apoiar a participação em torneios nacionais e garantir que o acesso ao esporte adaptado não dependa apenas do esforço individual de atletas e famílias.
O futuro do paradesporto no estado será medido não somente pela quantidade de medalhas, mas pela capacidade de revelar novos nomes, manter os atletas em atividade e oferecer caminhos seguros entre a escola, os centros de treinamento e as seleções. As histórias já construídas mostram que há talento. A consolidação desse percurso depende de oportunidade, estrutura e planejamento.