Anamã, no Amazonas, tem a formação marcada pela exploração dos seringais, pelo surgimento de comunidades tradicionais e pela influência dos rios sobre a ocupação do território. A agricultura, a pesca e o extrativismo fazem parte da organização econômica do município, enquanto as cheias periódicas alteram a circulação, o uso dos espaços urbanos e a continuidade de serviços.
Localizado a oeste de Manaus, Anamã integra a Região Geográfica Imediata de Manacapuru e a Região Geográfica Intermediária de Manaus. O município é conhecido como “Veneza do Amazonas”, denominação associada à transformação de áreas urbanas durante a subida das águas. O fenômeno exige adaptações no cotidiano dos moradores e na atuação do poder público.
Uma história ligada aos seringais
O histórico divulgado pela Prefeitura de Anamã registra a presença de fazendeiros na região antes de 1843. A formação dos primeiros núcleos de moradores é associada à procura por terras férteis e por áreas de exploração de seringais, atividade que teve papel importante na ocupação de diferentes partes da Amazônia.
Outra etapa do povoamento é situada por volta de 1936, com a chegada de antigos seringueiros vindos do Acre. A presença desses trabalhadores contribuiu para a constituição de comunidades e para a permanência de práticas relacionadas ao uso dos recursos naturais.
Documentos municipais também registram os nomes populares Alto Seringal e Princesa de Anori. O primeiro remete à exploração da borracha; o segundo teria sido utilizado por moradores na década de 1960. As denominações fazem parte da memória local, mas não são apresentadas como nomes administrativos oficiais.
Emancipação e organização administrativa
Anamã foi emancipado em 1981, por meio da Emenda Constitucional estadual nº 12, com o desmembramento do município de Anori. De acordo com o histórico municipal, Sebastião Pacheco Teles, então vereador de Anori, participou do processo político e venceu as primeiras eleições municipais, realizadas em 1982.
O aniversário oficial do município é celebrado em 31 de janeiro. A data foi estabelecida pela Lei Municipal nº 298, de 26 de setembro de 2017, e passou a integrar o calendário de referências da identidade administrativa e da memória coletiva de Anamã.
O significado do nome Anamã
A origem do nome Anamã é relacionada, em pesquisa apresentada pela prefeitura, ao nheengatu, língua de base tupi historicamente utilizada na Amazônia. O estudo de Ivany Jamys Ferreira Régis recupera registros do vocabulário de Ermanno Stradelli, publicado em 1928.
Os registros reúnem sentidos como “espesso”, “desmamado” e uma denominação de marreca. A variedade de significados não permite atribuir ao nome uma única tradução nem afirmar, sem documentação adicional, que a escolha tenha sido motivada especificamente pela vegetação ou por bebidas indígenas.
Território formado por comunidades
A descrição municipal informa que Anamã faz divisa com Anori ao norte e a oeste, Beruri ao sul e Manacapuru a leste. O clima é equatorial, quente e úmido, e a presença dos rios influencia tanto a circulação quanto a produção e a distribuição das comunidades.
A página de dados gerais da prefeitura relaciona 22 comunidades, sem informar o ano de referência dessa contagem. Entre os nomes citados estão Arixi, Cuia, Novo Brasil, Mato Grosso e Nossa Senhora de Nazaré.
Também aparecem São José e Eware, identificadas como comunidades Tikuna. Bom Jesus, Nova Esperança e Santa Luzia são relacionadas ao povo Kokama, na Ilha do Camaleão. A presença desses grupos mostra que a história de Anamã não se limita à sede urbana e inclui diferentes formas de organização social, conhecimentos e práticas produtivas.
Esse conjunto de comunidades ajuda a explicar a diversidade da identidade municipal. A vida econômica e social se distribui por áreas urbanas, rurais e ribeirinhas, em um território no qual as distâncias e as condições de deslocamento estão diretamente associadas ao comportamento dos rios.
População e indicadores do município
O painel Cidades e Estados, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registra 9.962 habitantes para Anamã no Censo de 2022. A estimativa populacional apresentada para 2026 é de 9.981 pessoas, diferença de 19 habitantes em relação à contagem censitária, ou aproximadamente 0,19%.
A área territorial informada para 2025 é de 2.382,521 quilômetros quadrados. Com base na população do Censo de 2022, a densidade demográfica é de 4,07 habitantes por quilômetro quadrado.
O mesmo painel aponta escolarização de 97,93% entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos, segundo o dado de 2022. O indicador se refere à matrícula e não mede, por si só, a aprendizagem dos estudantes.
O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de Anamã é de 0,594, com referência em 2010. Esse resultado está na faixa de baixo desenvolvimento humano. Como o dado pertence a 2010, ele não deve ser interpretado como uma fotografia atual das condições sociais do município.
O painel também informa mortalidade infantil de 11,36 óbitos por mil nascidos vivos em 2025. A avaliação de tendências desse indicador depende da análise de uma série histórica, e não apenas de um resultado isolado.
O Produto Interno Bruto (PIB) por habitante aparece com valor de R$ 15.528,45 em 2023. Esse número representa a produção econômica média por habitante e não equivale à renda individual da população. Para 2025, as receitas brutas realizadas foram de R$ 104.407.370,57, enquanto as despesas brutas empenhadas somaram R$ 85.950.030,37.
Agricultura, pesca e possibilidades de turismo
A agricultura e a pesca estão entre as principais bases econômicas apontadas para Anamã. A estrutura municipal atribui à Secretaria de Produção Rural e Abastecimento funções relacionadas ao apoio à agricultura familiar, à pecuária, à pesca artesanal e ao extrativismo sustentável.
Entre as atribuições também estão a assistência técnica, o acesso a crédito e o incentivo ao associativismo. Essas atividades conectam a administração pública às necessidades de produtores e trabalhadores que dependem dos recursos disponíveis no território.
O ambiente aquático também reúne atrativos turísticos. A Amazonastur destaca áreas para banho e cita os lagos Membeca e Patuá como locais para a prática de pesca esportiva. A identificação desses pontos não informa o número de visitantes nem permite medir a participação do turismo na economia municipal.
As cheias e a adaptação da cidade
A relação com os rios se torna mais evidente durante os períodos de cheia. Quando as águas sobem, áreas urbanas podem ser inundadas e os moradores precisam alterar suas formas de deslocamento. Reportagens registram o uso de canoas em ruas tomadas pela água.
Em 9 de junho de 2025, o Governo do Amazonas homologou situação de emergência em Anamã por meio do Decreto nº 51.871. O documento registrou inundações provocadas pela elevação dos rios Solimões e Anamã, com danos materiais, ambientais, econômicos e sociais em áreas urbanas e rurais.
A Defesa Civil municipal prevê ações de monitoramento de áreas de risco, planejamento preventivo, assistência às famílias e atenção às cheias periódicas do Solimões. As atribuições indicam que o regime das águas precisa ser considerado no planejamento urbano e na manutenção dos serviços públicos.
Em Anamã, a memória dos seringais, a presença de comunidades Tikuna e Kokama, a produção agrícola e pesqueira e a dinâmica dos rios formam elementos interligados da vida municipal. O território combina referências históricas, diversidade social e uma rotina condicionada pelas variações do nível das águas.
A organização do município, portanto, ultrapassa a preservação de sua memória. Ela envolve também a adaptação das atividades econômicas, da circulação e das políticas públicas a um ambiente em que os rios participam diretamente da ocupação e do cotidiano da população.