sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Municípios do Amazonas

Anamã reúne memória dos seringais, comunidades tradicionais e desafios impostos pelas cheias

Com território marcado pela presença de comunidades ribeirinhas e indígenas, Anamã construiu sua formação histórica a partir dos seringais e da ocupação às margens dos rios. Dados do IBGE mostram população de 9.962 habitantes no Censo de 2022, enquanto as cheias periódicas permanecem entre os principais fatores de organização da vida municipal.

Anamã, no Amazonas, tem a formação marcada pela exploração dos seringais, pelo surgimento de comunidades tradicionais e pela influência dos rios sobre a ocupação do território. A agricultura, a pesca e o extrativismo fazem parte da organização econômica do município, enquanto as cheias periódicas alteram a circulação, o uso dos espaços urbanos e a continuidade de serviços.

Localizado a oeste de Manaus, Anamã integra a Região Geográfica Imediata de Manacapuru e a Região Geográfica Intermediária de Manaus. O município é conhecido como “Veneza do Amazonas”, denominação associada à transformação de áreas urbanas durante a subida das águas. O fenômeno exige adaptações no cotidiano dos moradores e na atuação do poder público.

Uma história ligada aos seringais

O histórico divulgado pela Prefeitura de Anamã registra a presença de fazendeiros na região antes de 1843. A formação dos primeiros núcleos de moradores é associada à procura por terras férteis e por áreas de exploração de seringais, atividade que teve papel importante na ocupação de diferentes partes da Amazônia.

Outra etapa do povoamento é situada por volta de 1936, com a chegada de antigos seringueiros vindos do Acre. A presença desses trabalhadores contribuiu para a constituição de comunidades e para a permanência de práticas relacionadas ao uso dos recursos naturais.

Documentos municipais também registram os nomes populares Alto Seringal e Princesa de Anori. O primeiro remete à exploração da borracha; o segundo teria sido utilizado por moradores na década de 1960. As denominações fazem parte da memória local, mas não são apresentadas como nomes administrativos oficiais.

Emancipação e organização administrativa

Anamã foi emancipado em 1981, por meio da Emenda Constitucional estadual nº 12, com o desmembramento do município de Anori. De acordo com o histórico municipal, Sebastião Pacheco Teles, então vereador de Anori, participou do processo político e venceu as primeiras eleições municipais, realizadas em 1982.

O aniversário oficial do município é celebrado em 31 de janeiro. A data foi estabelecida pela Lei Municipal nº 298, de 26 de setembro de 2017, e passou a integrar o calendário de referências da identidade administrativa e da memória coletiva de Anamã.

O significado do nome Anamã

A origem do nome Anamã é relacionada, em pesquisa apresentada pela prefeitura, ao nheengatu, língua de base tupi historicamente utilizada na Amazônia. O estudo de Ivany Jamys Ferreira Régis recupera registros do vocabulário de Ermanno Stradelli, publicado em 1928.

Os registros reúnem sentidos como “espesso”, “desmamado” e uma denominação de marreca. A variedade de significados não permite atribuir ao nome uma única tradução nem afirmar, sem documentação adicional, que a escolha tenha sido motivada especificamente pela vegetação ou por bebidas indígenas.

Território formado por comunidades

A descrição municipal informa que Anamã faz divisa com Anori ao norte e a oeste, Beruri ao sul e Manacapuru a leste. O clima é equatorial, quente e úmido, e a presença dos rios influencia tanto a circulação quanto a produção e a distribuição das comunidades.

A página de dados gerais da prefeitura relaciona 22 comunidades, sem informar o ano de referência dessa contagem. Entre os nomes citados estão Arixi, Cuia, Novo Brasil, Mato Grosso e Nossa Senhora de Nazaré.

Também aparecem São José e Eware, identificadas como comunidades Tikuna. Bom Jesus, Nova Esperança e Santa Luzia são relacionadas ao povo Kokama, na Ilha do Camaleão. A presença desses grupos mostra que a história de Anamã não se limita à sede urbana e inclui diferentes formas de organização social, conhecimentos e práticas produtivas.

Esse conjunto de comunidades ajuda a explicar a diversidade da identidade municipal. A vida econômica e social se distribui por áreas urbanas, rurais e ribeirinhas, em um território no qual as distâncias e as condições de deslocamento estão diretamente associadas ao comportamento dos rios.

População e indicadores do município

O painel Cidades e Estados, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registra 9.962 habitantes para Anamã no Censo de 2022. A estimativa populacional apresentada para 2026 é de 9.981 pessoas, diferença de 19 habitantes em relação à contagem censitária, ou aproximadamente 0,19%.

A área territorial informada para 2025 é de 2.382,521 quilômetros quadrados. Com base na população do Censo de 2022, a densidade demográfica é de 4,07 habitantes por quilômetro quadrado.

O mesmo painel aponta escolarização de 97,93% entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos, segundo o dado de 2022. O indicador se refere à matrícula e não mede, por si só, a aprendizagem dos estudantes.

O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de Anamã é de 0,594, com referência em 2010. Esse resultado está na faixa de baixo desenvolvimento humano. Como o dado pertence a 2010, ele não deve ser interpretado como uma fotografia atual das condições sociais do município.

O painel também informa mortalidade infantil de 11,36 óbitos por mil nascidos vivos em 2025. A avaliação de tendências desse indicador depende da análise de uma série histórica, e não apenas de um resultado isolado.

O Produto Interno Bruto (PIB) por habitante aparece com valor de R$ 15.528,45 em 2023. Esse número representa a produção econômica média por habitante e não equivale à renda individual da população. Para 2025, as receitas brutas realizadas foram de R$ 104.407.370,57, enquanto as despesas brutas empenhadas somaram R$ 85.950.030,37.

Agricultura, pesca e possibilidades de turismo

A agricultura e a pesca estão entre as principais bases econômicas apontadas para Anamã. A estrutura municipal atribui à Secretaria de Produção Rural e Abastecimento funções relacionadas ao apoio à agricultura familiar, à pecuária, à pesca artesanal e ao extrativismo sustentável.

Entre as atribuições também estão a assistência técnica, o acesso a crédito e o incentivo ao associativismo. Essas atividades conectam a administração pública às necessidades de produtores e trabalhadores que dependem dos recursos disponíveis no território.

O ambiente aquático também reúne atrativos turísticos. A Amazonastur destaca áreas para banho e cita os lagos Membeca e Patuá como locais para a prática de pesca esportiva. A identificação desses pontos não informa o número de visitantes nem permite medir a participação do turismo na economia municipal.

As cheias e a adaptação da cidade

A relação com os rios se torna mais evidente durante os períodos de cheia. Quando as águas sobem, áreas urbanas podem ser inundadas e os moradores precisam alterar suas formas de deslocamento. Reportagens registram o uso de canoas em ruas tomadas pela água.

Em 9 de junho de 2025, o Governo do Amazonas homologou situação de emergência em Anamã por meio do Decreto nº 51.871. O documento registrou inundações provocadas pela elevação dos rios Solimões e Anamã, com danos materiais, ambientais, econômicos e sociais em áreas urbanas e rurais.

A Defesa Civil municipal prevê ações de monitoramento de áreas de risco, planejamento preventivo, assistência às famílias e atenção às cheias periódicas do Solimões. As atribuições indicam que o regime das águas precisa ser considerado no planejamento urbano e na manutenção dos serviços públicos.

Em Anamã, a memória dos seringais, a presença de comunidades Tikuna e Kokama, a produção agrícola e pesqueira e a dinâmica dos rios formam elementos interligados da vida municipal. O território combina referências históricas, diversidade social e uma rotina condicionada pelas variações do nível das águas.

A organização do município, portanto, ultrapassa a preservação de sua memória. Ela envolve também a adaptação das atividades econômicas, da circulação e das políticas públicas a um ambiente em que os rios participam diretamente da ocupação e do cotidiano da população.