A direção dos ventos será determinante para avaliar se a fumaça produzida por queimadas em municípios próximos pode alcançar Manaus. Um levantamento da NEX Hub de Análises Estratégicas identificou aumento de focos de calor em parte do entorno da capital entre agosto e setembro de 2026, mas ressalta que a distância entre os municípios, isoladamente, não confirma a trajetória da fumaça.
O estudo aponta que Iranduba, Manacapuru, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Careiro e Manaquiri tiveram crescimento nas detecções no período. A análise considerou dados do Painel do Fogo, do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), e informações territoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Apesar do aumento em 16 dos 62 municípios amazonenses, o estado contabilizou 65.610 focos de calor no bimestre de 2026. No mesmo período de 2023, foram registrados 89.758. A diferença representa redução de 26,9% no total estadual.
Proximidade não basta para explicar a fumaça
Para que a fumaça de uma queimada chegue a Manaus, é necessário que as condições atmosféricas favoreçam o deslocamento das partículas na direção da cidade. A localização de um município próximo pode indicar uma possível área de contribuição, mas não permite afirmar, por si só, a origem da fumaça observada na capital.
Essa avaliação depende principalmente da circulação atmosférica. Um estudo apresentado no Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia, com base em dados da estação do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) entre 2012 e 2019, identificou predominância de ventos de leste e nordeste em Manaus durante os períodos seco e chuvoso.
Com base nesse padrão histórico, Itacoatiara e Rio Preto da Eva estão em setores geográficos compatíveis com possíveis entradas de ar vindas dessas direções. Caso haja queimadas nesses municípios e os ventos sigam rumo à capital, as áreas podem contribuir para a presença de fumaça. A análise, porém, não confirma que esse deslocamento tenha ocorrido em 2026.
Municípios localizados em outras direções também podem ter influência em situações específicas. Careiro está ao sul de Manaus, enquanto Iranduba e Manacapuru ficam a oeste e sudoeste. Nesses casos, o transporte da fumaça dependeria de ventos provenientes desses setores.
Manacapuru teve maior aumento absoluto
Entre os municípios do entorno, Manacapuru registrou o maior acréscimo em números absolutos. Foram 2.730 focos de calor entre agosto e setembro de 2026, contra 1.230 no mesmo período de 2023. O aumento foi de 1.500 detecções, equivalente a 122%.
Iranduba apresentou a maior variação percentual do levantamento. O município passou de 192 focos em 2023 para 657 em 2026, crescimento de 242,2%.
Caapiranga, situada mais a oeste do estado, também teve alta expressiva. As detecções subiram de 946 para 2.248, aumento de 1.302 focos ou 137,6%.
Itacoatiara passou de 1.710 para 1.962 focos, variação de 14,7%. Em Rio Preto da Eva, o número aumentou de 241 para 327, alta de 35,7%.
Na área ao sul de Manaus, Careiro registrou crescimento de 1.236 para 1.442 focos, ou 16,7%. Manaquiri avançou de 1.247 para 1.328 detecções, alta de 6,5%.
Outros municípios também tiveram alta
O levantamento identificou crescimento em 16 municípios do Amazonas. Além das cidades próximas de Manaus, aparecem na lista Urucurituba, Boa Vista do Ramos, Nova Olinda do Norte, Borba, Apuí e Maués, entre outros.
Urucurituba teve uma das maiores altas proporcionais, passando de 457 para 1.192 focos, aumento de 160,8%. Em Boa Vista do Ramos, as detecções subiram de 690 para 1.022, alta de 48,1%.
Apuí concentrou o maior número de focos no estado no bimestre de 2026. Foram 11.033 registros, contra 10.342 em 2023, aumento de 6,7%. Maués passou de 3.690 para 3.864 focos, alta de 4,7%.
Na região intermediária de Manaus, que reúne os municípios do entorno e outras áreas, foram contabilizados 18.980 focos entre agosto e setembro de 2026. No mesmo período de 2023, o total havia sido de 18.231, aumento de 4,1%.
Queda estadual foi puxada por municípios do sul
A redução no total do Amazonas ocorreu principalmente por causa do recuo registrado em municípios do sul do estado. Lábrea teve queda de 61%, passando de 10.486 focos em 2023 para 4.094 em 2026.
Humaitá registrou redução de 71,2%, de 5.314 para 1.530 detecções. Em Canutama, o número caiu de 3.644 para 1.013, baixa de 72,2%. Boca do Acre passou de 5.080 para 2.107 focos, redução de 58,5%.
Também houve recuo em Novo Aripuanã, Manicoré e Tapauá. Novo Aripuanã registrou queda de 23,7%, enquanto Manicoré teve redução de 46,6% e Tapauá, de 68,9%.
Os resultados mostram como a soma estadual pode apresentar queda mesmo quando determinados municípios registram crescimento. A distribuição dos focos entre as diferentes regiões do Amazonas influencia diretamente o resultado final.
Comparação considera agosto e setembro
A comparação principal do levantamento considera apenas agosto e setembro de 2023 e de 2026. O recorte foi adotado porque os dados de outubro de 2026 ainda não haviam sido divulgados.
Em 2023, outubro acrescentou 31.782 focos ao total registrado entre agosto e setembro. Com isso, o trimestre chegou a 121.540 detecções. O mês representou 26,1% do total do período de agosto a outubro daquele ano.
O material destaca que outubro de 2023 foi marcado por forte presença de fumaça em Manaus, em um contexto de El Niño intenso combinado com a seca recorde dos rios do Amazonas. Para 2026, as condições de El Niño estavam em formação, segundo boletim da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) citado no estudo.
O boletim de 13 de agosto de 2026 indicou fortalecimento do fenômeno e mais de 90% de probabilidade de um evento muito forte no fim do ano. De acordo com a análise, os efeitos sobre a seca amazônica costumam se intensificar no fim do ano, o que pode alterar o quadro observado até setembro.
Dados foram obtidos por detecções de satélite
O estudo utilizou a soma de detecções de focos de calor por satélite, organizadas por município e exportadas do Painel do Fogo do SIPAM. As áreas municipais foram calculadas com base na malha territorial do IBGE.
A análise também apresentou a densidade de focos por 1.000 quilômetros quadrados, indicador que permite comparar municípios de tamanhos diferentes. Nesse recorte, Careiro da Várzea registrou 543,5 focos por 1.000 quilômetros quadrados em 2026, seguido por Urucurituba, com 416,2, Boa Vista do Ramos, com 394,7, e Manacapuru, com 372,1.
Os focos de calor são detecções feitas por sensores e não correspondem necessariamente a incêndios individuais. A interpretação sobre a chegada de fumaça a Manaus exige a combinação dos dados das queimadas com informações sobre vento, circulação atmosférica e condições meteorológicas.








